quinta-feira, 7 de março de 2013

Gazeta em forma de e-meio 120


"Yo soy Chávez"


"Você, criança, é Chávez! Você, estudante, é Chávez! Você, camponês, operário, soldado, trabalhador, aposentado, mulher e homem revolucionário e patriota, é Chávez! Chávez não sou eu; todos somos Chávez; porque Chávez é o povo!" (Hugo Chávez, durante a vitoriosa campanha para a eleição presidencial de 7 de outubro de 2012 na Venezuela)

Quando soou em meus ouvidos a notícia da morte de Chávez, a sensação foi a de que o mundo murchava como uma bola cheia que acaba de ser brutalmente perfurada.

De fato, o mundo ficou menor sem Chávez. Porém, graças a seu legado de estadista e orador, com mais conteúdo humano. Em especial no que mais falta fazia a este mal tratado planeta e a seus infelizes habitantes: a chama política revolucionária - revolucionária mesmo! - que, ao final do passado século, por pouco (por Chávez) não se extinguiu.

Acompanhando pela TeleSur o cortejo fúnebre em Caracas pude testemunhar o esplendor dessa chama nos depoimentos do povo venezuelano. Diante das câmaras, os homens e as mulheres do povo da Venezuela, em particular e com melhor fluência os de extratos sociais de menor renda, não titubeiam nem se acanham. O discurso revolucionário está na ponta da língua. E em um gráu superior de comunicação verbal.

Nas seis horas de cortejo, a TeleSur colheu pelo menos uma centena de depoimentos de populares, tomados ao acaso de quem passava por perto da equipe de reportagem. Foi um programa e tanto, apesar da longa duração. Sinceramente, eu gostaria de revê-lo todo, pois o imperativo do trabalho várias vezes me obrigou a deixá-lo. Devo ter perdido muita coisa boa, pela amostra do que pude ver. Penso que uma boa montagem geraria uma antologia audiovisual tão preciosa quanto saborosa e atraente. "Todos somos Chávez!"

Muitas vezes embargada pela dor da perda ou  pela emoção do momento, mas sempre com o timbre de uma consciência sinceramente refletida, a hoje revolucionária voz do povo venezuelano tornou-se capaz de compor análises, críticas, dissertações, cantos de amor, poemas e outras peças de oratória, com elevadíssima média de qualidade comunicacional (e até literária), algumas das quais alcançando mesmo, e sem exagero, o virtuosismo.

Termos considerados eruditos e tidos como de complexa ou difícil verbalização em discursos de improviso, mais ainda quando saindo da boca do povo, tais como, "parafraseando a Pablo Neruda", "construindo o homem novo", "oligarcas apátridas", "plutocracia entreguista", "proibido olvidar", "célula revolucionária", "participação protagônica", "construção do socialismo", "emancipação do poder popular" entre outros do tipo, são pronunciados com uma surpreendente fluência, propriedade e domínio conceitual, sem nenhuma afetação cartilhesca ou cacoete de decoreba.

A maior riqueza audiovisual do documentário que aqui mentalmente realizo estaria na força dessa incrível oratória amparada nas imagens com ela sincronizadas de donas-de-casa, operários, empregadas domésticas, lavradores, balconistas, taxistas, deficientes físicos, secundaristas, malabaristas, artesãos e até atletas e artistas, na grande maioria pessoas de origens humildes, de todas as etnias e miscigenações, numa ampla variação etária (calculei a "faixa" entre os 15 e os 90 anos).

Num determinado momento, peguei um breve contraponto da TeleSur tomando depoimentos numa manifestação pró-Chávez em Madrid. Pobre Europa! Seus "cultos" filhos já mal sabem balbuciar umas poucas e desconexas frases diante das câmeras. Foi de dar pena. Falta ao povo europeu o espaço cultural e midiático que Chávez conquistou para os "sudacas" venezuelanos. Daí o despreparo e o pouco convívio com o léxico daqueles pobres nordacas (o que não quer dizer que são nordacas pobres, apesar de em crise).

Vi certa vez num programa da VTV (estatal venezuelana) o filósofo mexicano Fernando Buen Abad exibindo um gigantesco catálogo de obras e conquistas da Revolução Bolivariana, preparado por um grupo de jornalistas de Caracas. Estou certo de que esta não consta nele. É uma conquista pedagógica, de essência; essência revolucionária, humanista e marxista por excelência. Quando perguntaram a Marx sobre "liberdade de imprensa", ele respondeu que não lhe interessava a "liberdade de imprensa" mas, sim, "a imprensa da liberdade". Pois aí está ela, nas telas da TeleSur. E assim deve ser incluída no catálogo das conquistas de Chávez: a imprensa da liberdade.

Contudo, gigantesca mesmo é a glória de Chávez. Perto dele, os "estadistas" neoliberais que assolam as Américas e a Europa não são mais que um balaio de ratazanas imundas e peçonhentas que mal chegam aos seus calcanhares. O que lhes bastou para, enfim, inocularem essa peçonha altamente infecciosa, produzida com tecnologia "de ponta" ou "de última geração", num dos calcanhares do nosso Aquiles sulamericano.

Eis porque a transmissão da TeleSur não me salvou do pessimismo.

Permanecem em mim graves razões para pensar que é a estupidez que prospera na humanidade, que a imundície se sobrepõe à pureza. É a ação do diabo na natureza humana, a que nos faz recordar a indignação de Unamuno ao ver as falanges facistas de Franco invadirem o seu "templo do saber", a sua amada Universidade de Salamanca:

"Vocês vencerão; vencerão porque lhes sobra a força bruta. Mas não convencerão, porque para convencer é preciso persuadir. E para persuardir necessita-se o que lhes falta: a razão e o direito de lutar."

Vai, Osama! Vai, Merdel! Vai, Montim! Vai, Rajoya! Vai, Hollanda! Vai, Camelon! Vai, Azner(a)! Vai, Uribi! Vai, Vagas Llosa! (assim mesmo, sem revisão) Vão vocês todos, de preferência, à puta que os pariu! O mundo é todo seus e de seus drones. Já dizia o meu falecido amigo Rogério Sganzerla: "o mundo é dos boçais!"

Quanto à mim, mesmo pessimista, eu sou Chávez!

domingo, 24 de julho de 2011

Gazeta em forma de e-meio 119

O caçador de marxistas




O super-herói da foto foi preso em flagrante, sem resistência, realizando uma matança de jovens que faziam uma espécie de pic-nic numa ilha perto de Oslo. Tratado pela mídia hegemônica como “norueguês”, “atirador de Oslo”, “autor do atentado”, “suspeito”, entre outros títulos cordiais, mas nunca como terrorista (um lourão tão bem vestido de mocinho-de-filme-de-ação não faz o “perfil”, não é, “rapazes da imprensa”?), antes de ser preso ele havia explodido uma rua inteira no centro da cidade com vários carros bomba e assassinado ao menos 92 pessoas indefesas a sangue-frio, a maioria jovens entre 14 e 25 anos de idade.


Registre-se que, tão logo rolou a notícia das explosões, as agências de “notícias” apressadas (CNN, inclusível) atribuiram-nas a um grupo terrorista islâmico que “já havia assumido a responsabilidade pelo atentado”. Aí estaria o “perfil”: os barbudos morenos de Maomé.


O visionário Jean-Luc Godard tem toda razão quando disse numa entrevista recente que “agora todo mundo é autor” e que “até mesmo os noruegueses podem fazer filmes tão ruins quanto os americanos” (ver Kynoma - http://kynoma.blogspot.com/2011/07/godard.html).


Sem dúvida, o “autor do atentado” é também, além de norueguês, autor de um tecnicamente bem cuidado audiovisual e um “profundo” livro-manifesto que a ambos tratou de publicar na internet pouco antes de sair para a heróica cruzada. Sim, leitor, o cara se julga um cruzado do século 21 e se respalda num denso manual ideológico de fazer inveja ao Pentágono e à OTAN. São mais de 1.500 páginas de word onde o maníaco se justifica e se autonomeia “caçador autorizado de marxistas e de traidores multiculturais” à partir da “elementar” constatação de que a Europa encontra-se totalmente à mercê dos marxistas e do “comunismo internacional”, e do “islamismo fundamentalista” e seus “terroristas”.


Numa rápida leitura (bem) dinâmica do imenso documento, lê-se coisas do arco-da-velha. Por exemplo: todos os europeus natos que não pensam como ele são classificados de “traidores multiculturais” (dos “tipos A, B e C”), os quais devem ser eliminados por várias táticas de matança tramadas e descritas em detalhes pelo “autor”. A predileta parece ser a de buscar “alvos desprotegidos”, tais como reuniões de partidos, congressos científicos, festivais de estudantes, eventos culturais, etc, para se obter mais eficiência na “limpeza”, ao invés de perder tempo e correr riscos contra alvos bem protegidos. Em seu “raciocínio”, autoclassificado de “lógico” e “pragmático”, ele “deduz” que estudantes (todos, “futuros comunistas”), além de indefesos, são alvos mais prioritários do que um chefe de estado, p. ex., pois as cagadas deste estão feitas e as dos daqueles, por fazer. Logo!... se estará “limpando” o futuro, já que o passado sujo não tem mais jeito. E por aí vai...


Voltando a Godard, o que se constata dessa mais recente produção norueguesa é que, insistimos, ele tem toda razão. Vivemos a época da boçalidade tecnicamente bem equipada para produzir “idéias”. A inteligência e o talento não são mais exigidos uma vez que os recursos estão disponíveis a qualquer um e ambos, inteligência e talento, podem ser obtidos (comprados) “artificialmente”, até por quem não os possui, através das diversas “ferramentas disponiblizadas” (sic) seja na “web”, seja no “mercado”.


Sem saudosismos, o que este gazeteiro quer dizer é que há menos de quatro décadas uma “produção” dessas era absolutamente inviável e o autor teria de curtir suas “criações” num manicômio assim que começasse a rascunhar os primeiros manuscritos.


Era uma época em que até para ser presidente dos Estados Unidos o sujeito precisava ao menos parecer inteligente e demonstrar algum talento para a política. Nem se diga então o quanto de talento e inteligência eram necessários para escrever um livro de 1.500 páginas ou realizar um filme, mesmo um de curta-metragem. E sem o filme e o livro para se exibir ao mundo esse norueguês não iria sair matando as pessoas. Tal como os caras da OTAN e do Pentágono, ele é um boçal alucinado mas não um idiota.


A Humanidade precisa se cuidar melhor e é bom ter mais cuidado com a internet, pois, como diz o meu amigo Valdemar Gravura, ela pode ser “uma faca de dois legumes”.


E, mais uma vez, leitor, haja aspas para estes tempos ásperos.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Gazeta em forma de e-meio 118

Este mundo é um hospício
(sem aspas, pois o filme do Capra fica “no chinelo”)

Passei dois dias e duas noites num hotel de cidade do interior e, no tempo vago, não tinha outra saída senão ligar a TV: lixo, lixo e mais lixo. A GloboNews estava 24 horas no ar com a façanha Obama x Osama; de manhã, de tarde, de noite e de madrugada, nas vezes que passei por seu canal. Numa delas, decidi ouvir o que falavam quatro senhores reunidos numa sala cenográfica. Um deles, o que falava mais, reconheci como um “jornalista” de variedades que às vezes é visto cobrindo um bueiro que vazou e outras entrevistando gente na rua. O rapaz era o mais empolgado com a façanha de seu amigo Obama. Falava como se acabasse de sair de uma reunião com “o Obama”, “a Hillary” e “o Gates”, e era assim que os tratava, como se os frequentasse na intimidade. Os outros também se assanhavam e quando conseguiam abrir a boca era para acrescentarem algo e mostrarem-se igualmente “bem informados”. “O Obama decidiu acabar com os inimigos da América” – dizia o empolgadão, entre anuências e apartes dos demais – “e decidiu que agora não tem mais protelações diplomáticas, conversa mole ou firulas demagógicas. O Kadafi, o Fidel, o Chavez, o Ahmadinejhad e outros ditadores menores já estão na mira”.

Na década de 70, se aqueles quatro fossem pilhados num delírio desses seriam imediatamente encaminhados ao hospital psiquiátrico mais próximo.

“Comunidade Internacional” é um termo sem significado objetivo que designa coisa inexistente, isto é, uma ficção (de má qualidade). Uma pesquisa exata do termo (entre aspas) que acabo de fazer no Google encontrou-o em 2.210.000 páginas web em língua portuguesa. Em espanhol, “comunidad internacional”, 4.240.000; em inglês, “international community”, 16.300.000 (o Google agora deu para “arredondar” a quantidade de seus “achados”). A globalização é uma ficção de má qualidade. Cuidado, leitor, ela pode levá-lo ao reino da fantasia onde, ao menos virtualmente, deve habitar a tal “comunidade internacional” devidamente disneyficada, macdonaldizada, plastificada e radioativa.

A palavra “terrorista” designa pessoa, conjunto de pessoas, entidade ou até coisa que revele patriotismo, que promova a soberania de sua nação, a autodeterminação de seu povo e atue ou lute para defendê-las. O sinal da TeleSur, por exemplo, é considerado pelo Congresso dos EUA como um “sinal terrorista”.

O “Ocidente” (outra palavra que tem sido usada, para além de sua significação geográfica, como um termo sem significado objetivo e que designa coisa inexistente) ficou barbarizado com a escândalosa notícia de uma mulher iraniana que teria sido condenada à “morte por apedrejamento” por ter cometido adultério. Todas as matérias mostravam a mesma foto de uma mulher vestida de negro em que só lhe aparecia o rosto, mas isto era o bastante para que todos vissem que se tratava de uma mulher lindíssima.

“Progressistas” de todos os matizes e níveis intelectuais, de classe, de poder político (até presidentes de repúblicas), inclusive notórios racistas e ao menos três dos sete sábios do Sion de “última geração” (Sarkozy, Aznar e Blair), esbravejaram aos quatro cantos contra a barbaridade em prolixas análises daquela atrasada sociedade muçulmana. Porém, só um jornalista, o francês Thierry Meyssan (RedVoltaire), decidiu investigar o caso e demonstrou que era tudo mentira (ver http://www.voltairenet.org/article167005.html, em espanhol). Uma completa mentira. Depois, internautas descobriram que a foto era a de uma modelo inglesa, e que tinha sido feita para um anúncio de cosméticos.

Um nota de conhecimento geral: a pena de apedrejamento por “crime de adultério” fora instituída por Moisés, Rei dos Judeus, e teria sido revogada por Jesus Cristo com o célebre desafio a quem atirasse a primeira pedra. Há mais de dois mil anos!

Todos os dias, em algum lugar das manchetes principais e de algum lugar da União Européia ou dos EUA, um sempre diferente senhor, sempre muito bem vestido e sendo apresentado como “autoridade” civil ou militar da “comunidade internacional”, fala a jornalistas muito bem vestidos e bem comportados para declarar sua “preocupação” com a população civil da Líbia e a necessidade de bombardeá-la para protegê-la da sanha assassina do “ditador” que a governa. O discurso é sempre breve e exatamente o mesmo, todos os dias! Os jornalistas manifestam aquiescência em unânimes e bovinos movimentos de cabeça. O “republicano público”, idem. Todos os dias, há mais de dois meses!

Na TeleSur, Walter Martinez desmascara esse autismo midiático com seu estilo crítico sutil e cada dia mais implacável.

O herói do governo dos trabalhadores no Brasil faleceu há pouco. Era um empresário que lutou contra o câncer que o matou, tal como fazem quase todos os que sofrem da terrível moléstia, só que, no caso dele, com (muito) mais grana. Um jornal daqui de Minas deu a seguinte manchete: “Um grande lutador, mas sem perder a ternura”. Quer dizer, Che Guevara que se cuide. Mas a “ternura” do empresário não fora bastante para que ele aceitasse se submeter a um exame de DNA por petição de uma moça que alega ser sua filha e que só quer ser reconhecida pelo pai. No prontuário da “ternura” do nosso herói consta também a orientação de sua empresa em só contratar mulheres que comprovassem ligação de trompas. Nos anos 80, o excesso de operações desse tipo na cidade onde ficava a fábrica chamou a atenção das autoridades e processos foram movidos... e, depois, sumiram.

Aliás, a fábrica fora subsidiada pelo governo da ditadura militar para produzir tecidos para a população brasileira e não podia ser vendida a estrangeiros. Mas o esperto empresário vendeu a fábrica sem vendê-la ao vender toda a produção dela por vinte anos futuros para os chineses, os quais trataram de tirá-la do mercado nacional para abri-lo aos tecidos made in China. Depois desse negócio da China, o espertalhão lutador comprou uma cadeira no Senado e viveu feliz para sempre... ou ao menos até que o câncer foi diagnosticado.

Para provar que foi o Osama mesmo que morreu, os caras o jogaram no fundo do mar e não deixaram ninguém fotografar o falecido. Mas disseram que verificaram o DNA do monstro e que foi o corpo dele, com certeza garantida pelos tripulantes de um porta-aviões, que mandaram para as prefundas oceânicas. Esses tripulantes não podem dar entrevistas mas deviam ter conhecido o Osama desde criancinhas pois juraram com uma das mãos sobre a Bíblia e a outra sobre o Corão que era o corpo do próprio que puseram no saco preto. Além do mais, rezaram em coro na ocasião do funeral marítimo em honra do falecido e dos que o assassinaram. Quem não quiser acreditar, que resgate o corpo para conferir. Quem sabe a turma que resgatou as caixas pretas do Airbus topa a parada?

E a feminista Dilma Roussef chorou no caixão do nosso herói, beijando para as fotos o seu heróico rosto, ao mesmo tempo que impunha uma significativa e “feminista” distância diplomática e política da República Islâmica do Irã por causa da “futura apedrejada”.

Haja aspas para estes tempos ásperos, leitor.

Numa edição de jornal televisivo, o âncora “informou” que a descoberta do esconderijo de Bin Laden só foi possível graças aos “novos métodos de interrogatório” praticados na prisão de Guantânamo. E exclamou, inusitadamente, olhando com desafiadora firmeza para os “da poltrona” como se estivesse abrindo e grifando um parênteses “(ou TORTURA, se VOCÊS quiserem!)”. Não queremos não, seu âncora; VOCÊ (e seus patrões) é que quer(em). Na pele dos outros, claro, especialmente de muçulmanos e cucarachas.

No Brasil governado pelos trabalhadores, a reforma agrária foi substituída pelo agronegócio como política de governo, a qual atende pelos nomes Monsanto e Eike Batista.

“Direitos Humanos” tornou-se um termo sem significado objetivo que designa etc... e a palavra “democracia”, entre esses termos, já é puta velha.

O discurso do Obama dando a notícia da morte do Osama foi doidão, foi ou não foi? Bããã... Será a influência do amigo dele da GloboNews, o que mencionei lá em cima?

Nas vizinhanças da Usina Nuclear de Fukushima, antes do tsunami, ia de vento em popa uma campanha anti-tabagista com base no slogan: “Não fume nas ruas, deixe a saúde passar”. Um dos patrocinadores era a empresa dona da Usina. Em parte, foi bem sucedida: não há mais fumantes nas ruas; aliás, não há mais ninguém. Pois o que passou e ainda passa por lá é outra coisa... que não fuma e morava lá há muito tempo sem sair de casa.

Isto pode dar uma série. O leitor pode colaborar.


Post Scriptium: o que está escrito acima “é tudo verdade”, como dizia o Rogério.

domingo, 27 de março de 2011

Gazeta em forma de e-meio 117

É difícil, Rogério!

Desculpe-me, companheiro, mas não resisti ao trocadilho. Veio-me imediatamente à memoria aquele dia em que caminhávamos por uma das ruas de Ipanema, não sei se a Barão ou a Nascimento, quando demos com um certo edifício que exibe um nome pomposo numa fachada medíocre: "Edifício Marcel Proust". E você, na mesma hora, saiu com uma das suas: "Ah, então era esse o ‘tempo perdido’?!"

Era muito engraçada a maneira com que você soltava (ou exclamava) seus chistes, quase sempre em interrogações. Não nos restava senão dar boas gargalhadas entre as muitas que demos pelas ruas e becos da amargura naqueles cinco anos da primeira e infeliz metade da década de 90, em que nossos destinos se cruzaram no Rio de Janeiro. Ambos penávamos um injusto ostracismo e uma imerecida maldição por conta de nossas rebeldias irmãs e revolucionárias que, desde os anos 60/70, vimos cometendo em nome da resistência cultural. Pelo menos, aquele não foi um tempo perdido para nós.

O que você não podia imaginar naquela hora é que ia também virar nome de edifício, Rogério. Sim, o nome do seu livro agora publicado - e este é o motivo desta segunda carta - foi intitulado Edifício Rogério. Não se esclarece o que motivou esse nome, digamos, exótico (para não dizer esdrúxulo - você o vetaria, claro), mas na capa do estojo de papel-cartão (o livro são dois livros dentro dele) imprimiram uma foto de você todo sorridente na comemoração dos seus sete anos de idade, diante de um bolo de aniversário em forma de edifício onde vão os dizeres: "Edifício Rogério". Não há, também, explicação do que isso tem a ver com o conteúdo. No primeiro livro são publicados 29 de suas colunas no Estadão e, no segundo, 28 delas na Folha de São Paulo.

Não posso dizer que o conheci bem naqueles anos de convivência, mas o pouco que conheci basta para que eu diga que você NÃO era um intelectual do tipo "meus oito anos" ou "minha terra tem palmeiras". Sua obra, sim, posso dizer que a conheço bem, tanto a cinematográfica quanto a literária, e nela nunca encontrei uma só referência saudosa de sua "infância querida" ou de sua terra natal. E em sua residência, pelo menos enquanto a frequentei, Joaçaba sequer tinha o status de "uma fotografia na parede".

Não estou dizendo que você abjurava ou se envergonhava das origens provincianas e pequeno-burguesas em que viveu a infância e a adolescência. Penso que simplesmente as guardava para si, num silêncio tímido. As revelações e insights que o iluminaram em São Paulo abriram para você um universo tão completamente novo e tão afastado daqueles cenários quanto você e sua obra eram distantes de pieguices sentimentais.

Gilberto Vasconcellos costuma dizer que os cineastas brasileiros que se destacaram na década de 60/70 eram quase todos "filhos-de-algo". Uns tinham pai, outros mãe, ou avô, ou tios com nomes e sobrenomes conhecidos, e que volta e meia frequentavam a balbúrdia midiática e festiva em torno deles e de seus filmes. Mas você, não. Os Sganzerla nunca vieram para o baile (e acho que não aceitariam o convite), nem havia entre eles, antes de você, alguma celebridade. Você surge como um cometa no cenário nacional, a partir de São Paulo, sozinho, sem pai e sem mãe, e foi assim até o último de seus dias. “Esse desenraizamento influiu em sua carreira, ou melhor, em sua correria, em sua errância de cineasta”, escreveu Gilberto no prefácio de Tudo é Brasil.

A definição da capa (e das ilustrações, quando se justificam - o que não é o caso desse “edifício”) é um dos trabalhos mais importantes de um editor de livros. Com certeza, os arquivos do Estadão e da Folha conservam fotos de você trabalhando na redação, ou na gráfica, ou na máquina de escrever (em que você era bamba), ou ao lado de conhecidos nomes do jornalismo (como o de Décio de Almeida Prado, seu padrinho de iniciação), que dariam ótimas capas e ilustrações pertinentes ao projeto editorial. Mas seus “editores” utilizam imagens de sua infância e adolescência, inclusive na capa. Para ilustrar o que, afinal? Atribui-las a uma semiótica mal intencionada, no sentido da insinuação de uma (absurda) componente ingênua ou naive em sua obra, seria superestimar a argúcia deles. Se, pelo lado da boa fé, quisessem aludir à sua precocidade, eu digo que se faria necessário um resumo biográfico ou um texto que informasse o leitor a respeito. Mas é que esse pessoal, quando se depara com material muito acima da média intelectual à que frequenta, costuma apelar para o “diferente”, o “inusitado”, o “engraçado-engraçadinho”, e acaba se estrepando em equívocos ou disparates delirantes. Não são editores, nem fazem livros para leitores. Tem acontecido muito: livros feitos por pessoas que não leem para pessoas que não leem. Para ambos, nada tem importância.

Contudo, o mais inusitado é o tratamento exegético da sua obra.

Cara!!! Não é que aconteceu agora justamente o que eu queria evitar quando, em 2004, dei aquele Alô Alô pra você! No início, até que começou a dar certo para nós e o nosso projeto. Depois do Alô Alô, saiu Tudo é Brasil e, na sequência, editores italianos, que fazem livros de pessoas que leem para pessoas que leem, o publicaram na bela língua deles, em impecável trabalho editorial. As três edições bateram bem onde chegaram (o leitor pode conhecê-las em http://marioobras.blogspot.com/2009/03/2004-critica.html).

A jogada era levar seus escritos, que, como seus filmes, são bandeiras da nossa geração, às novas e futuras gerações. Você e sua obra emulados por nomes chegados ao espírito culto e irreverente que caracteriza a sua/nossa inquietação, uma vez que ainda temos alguns – e dos bons! - que permanecem na batalha, empurrando o carro pesado da revolução.

Mas eis que você aparece escoltado (e ocultado, como veremos) por nomes de que eu nunca tinha ouvido falar; certos doutores e outros acadêmicos que devem ser bem conhecidos lá na Universidade de Santa Catarina, a qual chancela (e contamina) a edição junto ao logotipo do Banco Itaú. No que toca às chamadas "Ciências Humanas", as universidades são todas iguais: são entidades embalsamadoras do pensamento e do espírito (apesar de uns poucos resistentes que nelas insistem em permanecer). E no que toca aos bancos, nem é preciso dizer; são clones que se multiplicam com diferentes logotipos. O Itaú acaba de conquistar o título de maior sanguessuga da miséria do nosso povo ao anunciar um lucro pornográfico de R$ 13 bilhões em apenas um ano. Ou seja, a meia dúzia de acionistas daquela "produtiva" instituição abocanhou 1 bi (cerca de cem loterias) por mês, e ainda teve direito a 13º!!!

Você também contribuiu para esse lucro com o seu grão de areia, camarada. A merreca (para eles) gasta a título de "patrocínio" foi 100% abatida do imposto de renda daqueles safados, via Lei de Incentivo. Quer dizer: nós, o povo brasileiro, pagamos a conta. E não economizaram: dois livros na “caixinha”, dois coordenadores, dois prefaciadores, dois orelhistas, etc e tal. Com certeza, com cachês bem pagos, claro, mas quem garante é você! Ao menos no meu caso, as 70 pratas que gastei na compra da "caixinha" foi porque eu sabia quem estava nela, independente do que viesse junto (Helena não fez a gentileza de enviar-me um exemplar, nem a moça do Itaú, a quem, um tempo atrás e a pedido dela, enviei um exemplar de Tudo é Brasil).

Mas ainda não chegamos no pior, que é o embalsamamento (que palavra desgraçada) da sua literatura pelos magníficos doutores professores da UFSC. Os curriculum vitae não foram publicados talvez por serem de notórias autoridades na matéria, e é a minha ignorância que não alcança essas altas esferas do conhecimento.

Ludovico Silva, um gênio venezuelano nosso contemporâneo que você teria adorado conhecer (ele fez a última viagem pouco antes de você), e que só agora a Revolução Bolivariana da Venezuela vem revelando, diz o seguinte a respeito desse processo:

"Todos aqueles que, por não dar as costas à História e têm procurado dotar suas teorias de um sentido transformador e não indiferente à ação sobre o mundo empírico, ou bem tiveram de se retirar da filosofia acadêmica, ou bem são considerados por esta como "não filosóficos", o que, em outras palavras quer dizer simplesmente "bastardos". Um bastardo dessa natureza foi Karl Marx, cujo mundo teórico sempre foi intragável para os estômagos acadêmicos, ainda que, em larga escala, esses estômagos têm demonstrado uma resistência capaz de digerir, academizar e dissecar a obra de Marx, a ponto de torná-la irreconhecível. Tão irreconhecível que o Marx que circula como mercadoria filosófica nas universidades passou a ser um mero "interpretador" o qual, por sua vez, deve ser também interpretado, pelo que se foi perdendo todo e qualquer vestígio do sentido último de suas teorias, que era o de transformar e mudar o mundo."

Esta foi uma das razões que levaram boa parte da nossa geração a cair fora das universidades e da hipocrisia academicista. Se nesse trecho de Ludovico substituirmos o nome de Marx pelo seu, Rogério, teremos o que estão buscando fazer com a sua obra a partir do Edifício Rogério, "edifício" que é só de fachada, como o do bolo de aniversário da foto de capa. Seus exegetas se comportam como os de Marx, que Ludovico denuncia. Fazem uma leitura "dinâmica" da sua obra, e engessam-na em “análises” do tipo formal-com-formol. Escrevem como se dissessem aos alunos: - o autor tem lá sua importância, mas vocês não precisam se dar ao trabalho de ler os calhamaços que escreveu, pois o que interessa sobre ele e sua obra está na página tal da minha apostila.

Notável é o grilo desses caras com palavras que frequentam com assiduidade os seus/nossos textos, tais como gênio, revolucão, irreverência, liberdade, resistência, inteligência, imperialismo, colonialismo, e não duvido que se contarmos todas vamos a mais de um terço do léxico. Discurso revolucionário eles chamam de “dicção inflamada”; irreverência é “sintaxe inusual”; liberdade de linguagem é “colagem de signos aparentemente díspares”; e por aí vai... É um preconceito que resulta numa limitação fatal à livre expressão de qualquer idéia. O estilo é coisa proibida; ao ler orelhas e prefácios, a impressão é a de que dizem a mesma coisa pelo mesmo autor, com ligeiras alterações de forma, e, para o seu caso, com permissivas “licenças poéticas” e arroubos “criativos” que só chegam ao lugar comum e à banalidade (na verdade, tentam mostrar que são mais criativos que você).

Em essência, o seu exegeta é um só, como sugere Ludovico: o estômago acadêmico. Uma espécie de norma ISO de redação exegética que só pode dar em mediocridade.

Assim, a presença de Noel Rosa na sua obra não se dá porque você o considera "o mais revolucionário dos cantadores da tristeza da raça negra", como escreve em uma de suas colunas da Folha, que é publicada no próprio livro 2, na página 53, mas é "por (Noel) introduzir uma nova poesia urbana na música popular brasileira, com amor, humor e dor", como pontifica vazio e piegas o seu exegeta, tentando ser poético.

Também João Gilberto é frequente em sua obra não porque você o vê como "único solitário insubmisso cantor brasileiro a não alienar ao povo desse país-continente a possibilidade daquela inteligência e concentração necessárias a uma maioridade cultural" (pag. 53, livro 2), pois o professor nos ensina que é "por (JG) criar uma batida inaudita e uma bossa nova de cantar, na música popular brasileira internacional" (???).

São inúmeras as passagens em que você expressou a sua admiração pelas referências fundamentais da sua obra: Welles, Oswald, Godard, Noel, etc. Nenhuma é citada. Aliás, sempre quando o citam, não o fazem literalmente. Eles “explicam” você. Ao invés de abrir aspas e lançar suas linhas geniais sobre o assunto, como várias vezes fez Gilberto no prefácio que mencionei, ao mesmo tempo apoiando suas idéias e estimulando o leitor a embarcar na sua obra, tentam uma “simplificação didática”, numa postura distante e blasé, como a de quem diz: - é o autor que pensa assim, eu não tenho nada com isso, sou apenas um observador.

Um outro exemplo é o de Hendrix. Você, em nosso Alô Alô (pag. 95): "Dzin, jin, gênio, nuntius (em latim, enviado) ou como quiser nomear aquilo que é inominável (...) aquele ser movido por uma graça que faz a história vibrar e ameaça o transcorrer acadêmico das coisas". Como esse texto, apesar de ter sido publicado na Folha, não está na “caixinha”, não sei se os caras o leram. Mesmo assim, a forte presença de Hendrix na sua obra precisava ser “explicada” e ajustada ao conformismo ideológico acadêmico; o que resultou na seguinte banalidade professoral: “por (JH) transformar a microfonia com música, numa orquestração radical de sons e cores na guitarra elétrica".

E, "durma-se com um barulho desses"! Os “corretivos” acadêmicos-mumificadores de seus originais conceitos não acadêmicos dos três exemplos acima estão na página 13 do livro 2, num só parágrafo! O bastante para que um jovem leitor inteligente abandone o livro, já bocejando e pensando que o tal "Edifício Rogério" não está com nada. Nossas edições "bastardas" sequer são mencionadas, nem como tais; e até a italiana - de "primeiro mundo", como eles dizem - é omitida; elas simplesmente não existem.

A indiferença com que "patrocinadores", coordenadores e exegetas o tratam e à sua obra é revoltante. Você e sua obra são para eles como cadáveres de indigentes em aulas de anatomia. O que interessa não são os textos nem você (cadáveres), mas as pontificações dos doutores ao dissecá-los. Assim como as fotos estão lá para ilustrarem coisa nenhuma, seus textos estão lá para não serem lidos. Fotos e textos são usados, disfarçadamente, como "documentos" da dissecação, mas nem a isto alcançam. Acabam como “anexos” meramente formais, sem qualquer vínculo ou compromisso com uma idéia ou projeto editorial consistente. Não há sequer a informação sobre o universo pesquisado e dos critérios de escolha e seleção de textos, fotos e iconografias, se é que houve algum. Para mim, o único critério visível é o “por sorteio”. É que o outro olho (interesse principal) estava fixado nos cachês, nos badalos da imprensa e nos convescotes burgueses de lançamento, já que o sucesso destes, mais uma vez, quem garante é você (e nós, pagando a conta).

Esse “tratamento” editorial não atinge macacos velhos como eu e os da nossa geração, mas pode causar sérias perdas de jovens leitores que, na desorientação desinformativa em que vivemos, necessitam alguma informação prévia sobre a leitura que devem encarar para sair da cegueira em que o Sistema (leia-se Banco Itaú and Brothers) pretende submetê-los a fim de neutralizar neles todo e qualquer potencial de rebeldia.

É um método de ocultação muito usado atualmente: cobrir o "cadáver" de exegeses elogiosas misturadas a badalos socialaites e dotá-lo de um caixão (ou "caixinha") feito sob medida para impedir que dele possa escapar qualquer luz de imortalidade. Pois, se não é isto, a ocultação do gênio revolucionário em camuflagem de rigor acadêmico com chancela oficializante de uma UF da vida não teria Banco Itaú patrocinando obras de Rogério Sganzerla. Os pilantras sabem onde põem o bico.

Podemos compreender que Helena e as “meninas” precisem da grana, mas, qualquer tenha sido ela, garanto que melhor negócio seria dar continuidade ao nosso projeto pela via alternativa, independente, pela nossa via – a sua via, Rogério! Temos condições de fazer um trabalho de fato importante e consequente. Eu disse à Helena que dinheiro seria fator secundário. Mas essa obscura publicação - ela, sim, bastarda, feita para fracassar e para que o fracasso seja atribuído a você - já ameaça queimar o seu nome e o ineditismo de sua obra literária, que muito favoreceriam o nosso projeto.

Não podemos permitir que obras como as suas sejam diluidas e ocultadas dessa forma; elas são preciosidades que muito contribuem para nos tirar da big bosta brazil em que estamos metidos. E digo mais: é pelas luzes emitidas por obras como as suas - e as dos que o antecederam e o sucederem em genialidade e consciência revolucionárias - que a humanidade haverá de encontrar o caminho para superar sua própria estupidez.

Contudo, ainda penso que o nosso projeto não foi de todo comprometido, companheiro, mas foi seriamente abalado. É difícil, Rogério! Mesmo assim,

Venceremos!

Mario Drumond
BH 24/3/2011

PS – Peço outras desculpas pela crueza e extensão da carta, mas julguei necessário desopilar-nos. Considero o livro uma das maiores conquistas da Humanidade. O melhor da minha vida devo aos livros, com os quais sempre me vi profundamente envolvido, como leitor, editor e autor. O que vou fazer agora é levar meu exemplar ao encardenador e pedir-lhe que liberte suas páginas de todas as que não são suas e as reencaderne juntas num só volume sob o título Rogério Sganzerla – Jornalismo – Textos sorteados, para que eu possa desfrutá-los com o prazer e a atenção que merecem.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Gazeta em forma de e-meio 116

A vez e a voz do morro na Cidade Jardim

Jovens de todas as idades unidos no milagre do samba da minha terra, que já não tem palmeiras nem sabiás (e os sábios que se cuidem). Mas, na pobreza digna do nosso barracão, meus amigos, mora a alegria fazendo jubileu de ouro: 50 anos de vida e luta. E vocês estão vendo só uma pequeníssima parte. Cada um desses que aí estão é um legítimo representante de legiões de sambistas, passistas, cantores, atores e artistas do povo. Que vão encher a avenida no próximo carnaval sob a bandeira do Grêmio Recreativo e Escola de Samba Cidade Jardim, cantando o samba enredo 50 anos de cores, brilhos e fantasias.

Que diz:

É na festa
È na festa, é na comemoração
É Cidade Jardim 18 vezes campeã (bis)

Minha nobreza, meu Belo Horizonte
É Cidade Jardim, parabéns para você
50 anos no portal de honra e glória

Sua coroa você fez por merecer
Só quem te viu
Quem te vê
Sabe da sua história

São cachoeiras desaguando na avenida
Muita beleza, confete e serpentina
Olha o requebrado da mulata ho ho ho
Olha o samba no pé
Muito obrigado, Maioral
Aonde você estiver

Nosso Rei Negro viajou
Numa carruagem guiada por
Cavalos marinhos, que foram ao fundo do oceano
Encontrou Atlântida, Cidade Sagrada
com toda magia; uma nova terra que surgia
Ao longe ouvia ecoar / ecoar
O canto da baiana Helena
Como uma estrela fazia brilhar
Quase roubava a cena
Rodando em saudação à Bahia

Que me levou ao seu reinado
Cidade Jardim paraíso encantado (bis)

(autoria de Domingos do Cavaco e Comissão do Carnaval)


E desfilando assim (roteiro do desfile: Graveto/Mario Drumond - carnavalesco: Graveto):


1. Comissão de frente (coreografia e Helena: Izabel Costa)

com 14 guerreiros e Helena

no Portal da Purificação (alegoria com o título-tema Cidade Jardim 50 anos)


2. Ala do Céu e do Mar

com 30 passistas em azul e branco


3. Carro de Atlântida com o Rei Negro (Alexandre Costa) e uma ninfa


4. Ala do Jubileu de Ouro (ou Ala da Coroa)

com 30 passistas em amarelo ouro


5. Carro da Natureza (cachoeiras e matas) com dois destaques


6. Ala da Fertilidade

com 30 passistas em verde e branco


7. Ala das Mulatas (Raiz do Samba)

com 30 passistas mulatas em vermelho


8. Ala das Baianas (30 baianas)


9. Bateria do G.R.E.S. Cidade Jardim (70 ritmistas)

Rainha da Bateria: Nega
Rainha da Escola: Kelly


10. 1º par de Mestre Sala e Porta Bandeira

Mestre Sala: Graveto
Porta Bandeira: Tiene


11. Carro dos 50 anos (8 a 10 destaques, um deles fantasiado de JK)


12. Ala Cidade Jardim

30 passistas de ouro


13. 2º par de Mestre Sala e Porta Bandeira (em fase de seleção)


14. Ala dos Antigos Carnavais

30 passistas em cores diversas
e mais quantos amigos vierem com fantasias famosas dos velhos carnavais


15. Ala da Diretoria (fechamento do desfile)

com atuais e antigos diretores



Memória e sinopse do desfile

Graveto/Mario Drumond

Este enredo nos leva a uma viagem de comemoração do nosso Jubileu de Ouro. São os 50 anos da Escola de Samba Cidade Jardim, e vamos a um encontro imaginário com os nossos eternos irmãos do samba, os que hoje habitam o reino dos céus.

Nossa escola, criada em 1961 no entorno da vila Santa Maria, região centro-sul de Belo Horizonte, alcançou grande importância na cidade, no estado e no país.

Em 1957, surgia o fenômeno do samba, Jairo Pereira da Costa, com o seu jeitinho moleque, sambista, e um sorriso alegre e conquistador. Ele fora o primeiro a conquistar o título de Cidadão do Samba, criado por JK, e nele brotava a raça, o sentimento e o orgulho de ser sambista.

Em 13 de abril de 1961, Jairo, seguido de outros componentes da Escola de Samba União Serrana, funda o Grêmio Recreativo e Escola de Samba Cidade Jardim. Dois anos depois, conquistamos o primeiro dos nossos dezoito títulos no carnaval de rua de BH, onze deles, consecutivos. Em 2002, toda Belo Horizonte ficou abalada com a noticia de que o então presidente da Escola de Samba Cidade Jardim, Jairo Pereira da Costa, partira para o reino dos céus .

No inicio de 2008, seu filho, Alexandre Costa (o nosso valente e querido Lee), assumiu a presidência, substituindo sua irmã Ângela da Costa em um momento de intenso conflito com a Prefeitura Municipal que despejara a escola de seu barracão, de maneira autoritária e prepotente. Lee dobrou as mangas da camisa e fez valer o sangue de sambista e de guerreiro que corre em suas veias, em honra ao seu pai. Com ele lutamos bravamente, dias e noites, agitando o centro da cidade com protestos, bateria, faixas e cartazes para despertar a indignação popular, e esta se vez valer: a nossa quadra nos foi devolvida.

Hoje, como uma das mais tradicionais escolas de samba de Minas Gerais, comemoramos 50 anos de lutas, glórias carnavalescas e obras sociais. Rasgando os céus sob o brilho da lua e das estrelas, bailando no horizonte das gerais, fazemos a festa para o nosso Rei Negro. É festa também para JK, nosso padrinho, é festa para os grandes carnavais que, no passado, protagonizamos nas passarelas do samba.

Com tanta beleza e luxo, é como se os encontrássemos nas maravilhas de Atlântida, o continente perdido, com a força e a magia de suas casas feitas em ouro e pedras preciosas, cachoeiras jorrando aguas cristalinas e os seres que habitam as profundezas do mar. É o reino encantado do sortilégio, de nobreza sobre nobrezas, onde nosso Rei Negro, coroado pela eternidade, chegou numa carruagem puxada por cavalos marinhos, passando pelo Portal da Purificação. E, cumprindo todos os requisitos que nele são exigidos, foi habitar as profundezas celestiais do oceano, onde a imaginação não encontrará jamais qualquer limite.

Nosso enredo é um chamado à grande festa popular que é o carnaval brasileiro, a relembrar os velhos amigos; um chamado à verdade e à magia de brincar, dançar e comer do bolo no baile de máscaras. Um chamado a participar!

A Cidade Jardim, com a sua comunidade, vai cantar e encantar em 2011, como sempre movida pelo amor e pela esperança de brilhar. São 50 anos a comemorar!

domingo, 5 de dezembro de 2010

Gazeta em forma de e-meio 115

Uma notícia triste

O falecimento de minha mãe

Maria Elisa Pitanga Maia Drummond
(18 de março de 1922 - 23 de novembro de 2010)


Segue-se o discurso que pronunciei na Missa de Sétimo Dia:

O triunfo de Maria Elisa

Queridos amigos,

Escolhi abordar a memória de minha mãe - Maria Elisa Pitanga Maia Drummond - não pelo ponto de vista do filho ou das relações internas da família que ela maternalmente presidiu, mas pelo aspecto singular do que foi mamãe como pessoa, como ser social, como amiga que era de todos nós, porque é o lado dela que nos une e nos irmana neste momento e, por isso, creio ser o mais apropriado.

Sim, mamãe não era só a mãe de seus filhos; ela era também nossa amiga - e que amiga! -, a mesma que todos vocês conheceram tão bem quanto nós, seus filhos.

Eis aí uma particularidade entre as que considero mais encantadoras na vida dela. Não era necessário um relacionamento íntimo ou frequente com ela para conhecê-la bem. Mesmo os que tiveram poucas ou esporádicas oportunidades de contato pessoal a conheciam tão bem como nós, que com ela convivíamos intimamente.

É que seu espírito se mostrava inteiro a qualquer pessoa com quem se relacionava, desde o primeiro contato. Era um espírito de transparência cristalina, sem disfarces, sem segredos, sem opacidades, sem nuances, sem ardis, sem temores e sem couraças - um verdadeiro diamante que ela permanentemente lapidava para torná-lo cada dia mais puro.

E que não se diga que era ela ingênua. Pelo contrário, era versada em dois importantes idiomas, o francês e o inglês, além do nosso idioma pátrio, que dominava muito bem. E nos três desfrutou de boa leitura, conversação e escrita; pode-se dizer que tinha uma ilustração bem acima da média. Porém, disso jamais tirou vantagem ou afetação de superioridade; nem se valeu desses atributos em proveito próprio. Comunicativa e desinibida como era, ela usava-os com naturalidade para aproximar pessoas de distintas nacionalidades e culturas. No mais, ela os mantinha em si mesma, nos planos mais elevados do deleite intelectual e da satisfação espiritual.

Mamãe teve por paradigma a bondade - a bondade no sentido cristão, católico, apostólico, com base nos ensinamentos simples e sábios de Cristo, de amor ao próximo, de misericórdia e de humildade, em que ela elegeu como ícone de devoção a bem aventurança de Santa Terezinha -, e, por virtude, cultivou a pureza. Jamais permitiu que seu espírito se deixasse contaminar por ambições e perversões mundanas. Sua atitude era sempre a de dar sem pedir nada em troca. Nunca cobrou nem pediu nada para si mesma, nem mesmo um mero reconhecimento. Para o bem alheio, sim, pedia, até de joelhos se preciso fosse. Ela conjugava o verbo dar na acepção franciscana, despojando-o da insignificância material e efêmera para enaltecê-lo de relevância espiritual e divina.

Assim, suas alegrias eram causadas não por seus próprios sucessos, os quais nunca almejou nem perseguiu, mas pelos sucessos daqueles que ela amava. Como disse bem o meu irmão Marco Antônio, "ela comemorava até gol da Argentina". Sabia como fazer suas as vitórias dos seus, fossem os mais próximos ou os mais distantes. Às vezes, as desfrutava mais e melhor que os próprios bem sucedidos. E como era amplo e populoso o seu continente amoroso! Era do tamanho do seu coração: nele não havia lugar para intolerâncias nem preconceitos; todos eram bem-vindos e bem recebidos. Desta forma, simples e direta, fez com que a sua vida se passasse quase toda num mar de alegrias e numa sequência de festas.

Uma vida que pode ser representada por uma linha reta traçada entre dois pontos: o de seu nascimento e o de sua morte. Nela se destacam dois segmentos: o primeiro, como filha gentil e amorosa de seus pais, Achilles e Elizeta, até o seu casamento com papai (depois de 11 anos de namoro e noivado) e o segundo, como esposa e mãe, em regime de dedicação exclusiva - únicos títulos que ela se honrava em possuir (e ainda conquistaria os de avó e bisavó) -, do feliz casamento que durou mais de 61 anos. Mas foi sempre a mesma pessoa do início ao fim e fez com que a retidão de sua vida ocorresse toda cercada de luz, de paz e de alegre harmonia.

Uma biografia sui generis, sem registros de inimizades, desafeições e outros tumultos existenciais ou de relacionamento, inclusive sem as máculas dos chamados pecados capitais, os quais, ao que parece, era capaz de anulá-los até no seu entorno; mesmo a inveja, o mais incidente contra pessoas como ela, logrou não despertar entre aqueles que a cercavam. Um rio único, límpido e calmo, que correu retilíneo, da fonte ao mar, por entre a floresta inóspita.

O fato de ela a ter vivido em trânsito por um mundo tão adverso - mundo este que, apesar de tudo, para ela fora o que abrigava os seres que ela soube amar, e por isto mesmo, sempre haveria de ser um mundo de esperanças - foi, para mim, e estou certo que para ela também, a sua grande vitória; um verdadeiro triunfo, talvez o mais significativo dos que se podem obter na vida terrena. Como isto foi possível a partir de pessoa tão frágil e tão desarmada como mamãe para esta vida tão dura, espinhosa e difícil como a em que vivemos?

Penso que temos parte nele. Mamãe se sabia muito bem protegida pelos seus, pois neles depositava absoluta confiança. Além de papai, seu mais próximo guardião, na dedicação do esposo que não permitia que a ela nada faltasse e que daria a vida para salvá-la de qualquer ameaça, nós, igualmente, como um exército de guardiães voluntários, procurávamos quitar a dívida espiritual que assumíamos com ela por sua bondade e generosidade, protegendo-a sempre que pudéssemos e onde estivéssemos. Ai de quem levantasse um dedo que ameaçasse Dona Maria Elisa! E sempre havia um de nós por onde quer que ela passasse. Assim, ela atravessou incólume durante os seu 88 anos, oito meses e quatro dias de vida a selva selvagem em que se transformou a existência urbana deste nosso planeta, trilhando-a firme e em linha reta. E, por mais vulnerável fosse tal existência quase somente espiritual e sensível, nós a protegíamos como um valioso bem que, em parte, conquistáramos através da amizade. E nos era muito valioso mesmo!

É este triunfo que aqui, depois de sete dias da dor que nos causou a sua partida, devemos comemorar como sendo de todos nós, pois com ele Maria Elisa, Dona Maria Elisa, mamãe, ressurge em nós como nossa mãe celestial e nos faz todos irmãos, tal como ela queria, e por tal pleito dedicou a sua vida dadivosa. Um triunfo da fé, dirão os religiosos; um triunfo da virtude, dirão os humanistas. Talvez, antes de tudo, um triunfo do amor, pois, como Santa Terezinha, a vocação dela era o amor.

Para terminar, faço aqui uma revelação, possivelmente a única desta oração, toda composta com fragmentos da vida de mamãe, que tão bem conhecemos:

Agora, que ela ultrapassou o último portal da sua bela existência, eu a posso ver, no pleno gozo do seu-nosso triunfo, na melhor das imagens que, em minha opinião, a literatura universal teria nos legado para representá-lo.

É aquela que a imaginação de Dante construiu para exaltar a sua Beatriz triunfante, como um novo facho de luz que se acrescenta à luminosíssima cúpula celestial no mais perto de Deus e mais elevado patamar do Paraíso, presidido pela Virgem Maria. Eu posso ver mamãe lá, sendo recebida com as bençãos de Nossa Senhora e de Santa Terezinha, e, humildemente, tomando o seu merecido lugar naquele cenário deslumbrante. De lá ela nos abençoa e se sente imensamente grata a todos nós por tê-la ajudado a ter sua morada eterna no lugar onde sempre desejou. E com aquele sorriso sereno e contagiante e a simplicidade de sempre, que são duas de suas mais conhecidas virtudes, outra vez ela nos diz:

Muito obrigada!


Igreja de São João Evangelista, no bairro da Serra,
em Belo Horizonte, 29 de novembro de 2010.

domingo, 25 de julho de 2010

Gazeta em forma de e-meio 114

A Gazeta recomenda

Para quem tem banda larga e cerca de uma hora e quinze minutos nesta domingueira, a Gazeta recomenda o discurso que Hugo Chávez pronunciou em cadeia nacional, neste sábado, em comemoração do 227º aniversário de nascimento de Simón Bolívar.

Está no vídeo, ao pé da página, no seguinte endereço, (duração: 71 min.):

http://www.aporrea.org/tiburon/n162006.html (a recomendação é de que o vídeo seja visto antes da leitura do texto na mesma página)

Apesar de ser em espanhol, a boa dicção do orador permite-nos uma clara e quase total apreensão do discurso. Mas, como informação que pode ser útil à sua melhor compreensão, pois nada do que realmente se passa lá é permitido que se divulgue por acá, é bom que se saiba:

a) A Venezuela está, neste momento, sob forte pressão bélica imperialista. Utilizando a Colômbia como uma nova Israel na América Latina, os EUA manipulam aquele governo títere para fazer as provocações (como a mais recente, na OEA) enquanto ocupam sete bases militares fortemente armadas no território colombiano. Como se não bastasse, estacionaram agora 46 navios de guerra na Costa Rica, além de fortalecerem as bases militares que mantêm em Aruba e Curaçao e ordenarem o deslocamento da 4ª Frota para o mar do Caribe. Ou seja, nos próximos dias, a Venezuela estará literalmente cercada de forças militares estadunidenses, prontas para agir.

b) A inteligência venezuelana desmantelou, duas semanas atrás, um plano de assassinato de Hugo Chávez ao prender o terrorista salvadorenho Chávez Abarca, com larga ficha de atentados contra Cuba, Nicarágua, Guatemala, Honduras e outros países da América Central a serviço da CIA e sob o comando do famoso terrorista Posada Carrilles.

c) Há cerca de 10 dias, em ambiente festivo e patriótico, o governo da Venezuela promoveu a exumação dos restos mortais de Simón Bolívar, com a finalidade de realizar diversos estudos e análises científicas com base em modernas tecnologias e elucidar uma série de dúvidas sobre a história do Libertador, especialmente as que são relacionadas com as reais circunstâncias de sua morte prematura e não de todo esclarecidas. O evento teve forte impacto nacional, com os principais momentos divulgados em cadeia nacional e com a troca dos aparatos funerários, que eram todos de origem estrangeira (ingleza) e foram substituídos por peças manufaturadas pelos trabalhadores venezuelanos com materiais (ouro e madeiras) do próprio país, e destaque para a nova bandeira que passa agora a envolver o sarcófago. Feita com tecido nacional, a bandeira viajou por todos os Estados para que costureiras bordassem nela as oito estrelas, como a queria Bolívar (eram sete na que estava no ataúde), diante das câmeras de televisão. O discurso de Hugo Chávez, pronunciado no Panteão dos Libertadores, em Caracas, é o da solenidade de encerramento dessas festividades.

d) Dia 26 de setembro próximo haverá eleições para a Assembléia Nacional da Venezuela. Era plano do Império se valer dessas eleições para derrubar a maioria chavista e eleger políticos de oposição que manejassem um golpe de Estado a partir do Legislativo, como fizeram em Honduras. Para isso, acirraram os ataques midiáticos, os boicotes econômicos e a sabotagem interna a fim de que os políticos de oposição tivessem mais chances na eleição. Porém, já perceberam que, apesar de tudo, a popularidade de Chávez não parou de crescer e tudo indica que ele conquistará uma maioria avassaladora (mais de 2/3) na Assembléia Nacional para a próxima legislatura. A conclusão dos "estrategistas" do Império é a de que somente uma invasão armada ou uma guerra provocada pela Colômbia, apoiada pelos EUA, poderá derrubar o governo bolivariano da Venezuela e eliminar Hugo Chávez.

E Hugo Chávez está ciente e consciente de tudo isso. Veja no vídeo.

sábado, 26 de junho de 2010

Gazeta em forma de e-meio 113

Fidel Castro, o mais experiente estadista vivo e o homem mais bem informado do planeta, ao menos na opinião deste gazeteiro, tem escrito, ao longo dos últimos quatro anos, uma série de artigos de fundamental importância, os quais, além de serem leitura obrigatória nos espaços de poder em todo o mundo, gostem ou não dele, vêm iluminando a consciência, o conhecimento e a opinião de todos os que nos interessamos e lutamos pela paz, pela vida e pela natureza nesta nossa única e ameaçada nave espacial - o Planeta Terra.

Hoje, a Gazeta rompe seu recesso para traduzir e divulgar em nossa língua esta reflexão que Fidel Castro acaba de publicar no site Cubadebate, e que já está reproduzida em inúmeros sites de língua espanhola.


Como eu gostaria de estar equivocado!

Fidel Castro Ruz
Havana, 24 de junho de 2010.


Quando estas linhas forem publicadas no Granma amanhã, sexta-feira, o dia 26 de julho, data que sempre recordamos com orgulho a honra de haver resistido aos embates do Império, estará distante, apesar de só faltarem 32 dias.

Os que determinam cada passo do pior inimigo da humanidade – o imperialismo dos Estados Unidos, uma mescla de interesses materiais mesquinhos, desprezo e subestimação às demais pessoas que habitam o planeta – calcularam tudo com precisão matemática.

Em 16 de junho escrevi: “entre um jogo e outro da Copa do Mundo, as diabólicas notícias se vão produzindo pouco a pouco, de um modo tal que ninguém se ocupe delas". O famoso evento desportivo entrava então em seus momentos mais emocionantes. Durante 14 dias, as equipes de futebol integradas pelos melhores jogadores de 32 países estarão competindo para avançar até as oitavas de final; depois virão sucessivamente as quartas de final, as semifinais e a final do torneio. O fanatismo desportivo cresce incessantemente, cativando centenas de milhões e talvez bilhões de pessoas em todo o planeta.

Agora, é o caso de perguntarmos: quantos sabem que, desde o dia 20 de junho, naves militares norte-americanas, incluindo o porta-aviões Harry S. Trumman, escoltado por um ou mais submarinos nucleares e outros navios de guerra com foguetes e canhões muito mais potentes que os dos velhos encouraçados da última guerra mundial, navegam em direção às costas iranianas através do Canal de Suez?

Junto às forças navais ianques avançam navios militares israelenses, com armamento igualmente sofisticado, para inspecionar quanta embarcação parta para exportar e importar os produtos comerciais de que o funcionamento da economia iraniana necessita.

O Conselho de Segurança da ONU, atendendo a proposta dos EUA, com apoio da Inglaterra, França e Alemanha, aprovou uma dura resolução contra o Irã, que não foi vetada por nenhum dos países que ostentam esse direito. Outra resolução mais dura foi aprovada por acordo do Senado dos EUA. Posteriormente, uma terceira, ainda mais dura, foi aprovada pelos países da Comunidade Européia.

Tudo isto, antes de 20 de junho, o que motivou uma viagem urgente do presidente francês Nicolás Sarkosy à Rússia, segundo notícias, para entrevistar-se com o chefe de Estado desse poderoso país, Dmitri Medvédev, com a esperança de negociar com o Irã e evitar o pior. Porém, só nos resta calcular quando as forças navais dos EUA e Israel se encontrarão frente à costa do Irã, unindo-se ali aos porta-aviões e demais navios de guerra norte-americanos que montam guarda naquela região.

O pior é que, tal como os EUA, Israel, seu gendarme no Oriente Médio, possui moderníssimos aviões de ataque e sofisticadas armas nucleares fornecidas pelos EUA, que o converteu na sexta potência nuclear do planeta por seu poder de fogo, entre as oito reconhecidas como tais, que incluem Índia e Paquistão.

O Xá do Irã fora derrocado pelo aiatolá Ruhollah Komeini em 1979, sem o emprego de uma só arma. Logo a seguir, os Estados Unidos impuseram uma guerra àquela nação com o emprego de armas químicas, cujos componentes forneceu ao Iraque junto com a informação requerida por suas unidades de combate e que foram empregadas por estas contra os Guardiães da Revolução Iraniana. Cuba tem conhecimento disso porque era então, como já explicamos outras vezes, presidente do Movimento dos Países Não Alinhados. Conhecemos bem os estragos que causou na população iraniana. Mahmud Ahmadinejad, hoje chefe de Estado do Irã, foi chefe do sexto exército dos Guardiães da Revolução e chefe dos Corpos de Guardiães nas províncias ocidentais do país, que levaram o peso principal daquela guerra.

Hoje, em 2010, tanto os Estados Unidos como Israel, depois de 31 anos, subestimam o um milhão de homens das Forças Armadas do Irã e sua capacidade de combate por terra, e as forças de ar, mar e terra dos Guardiães da Revolução. A estas, se acrescentam os 20 milhões de homens e mulheres, entre 12 e 60 anos, escolhidos e treinados sistematicamente pelas diversas instituições armadas entre os 70 milhões de pessoas que habitam o país.

O governo dos Estados Unidos elaborou um plano para levar a cabo um movimento político que, apoiando-se no consumismo capitalista, dividisse os iranianos e derrocasse o regime. Tal esperança é já inócua. Chega a ser risível pensar que, com as naves de guerra estadunidenses, unidas às israelenses, despertem as simpatias de um só cidadão iraniano.

Por minha parte, acreditei inicialmente, ao analisar a atual situação, que a contenda começaria pela península da Coréia, e ali estaria o detonante da segunda guerra coreana que, por sua vez, daria lugar à segunda guerra que os Estados Unidos imporiam ao Irã. Agora, a realidade levou as coisas ao sentido inverso: a guerra do Irã desencadeará de imediato a da Coréia. O governo da Coréia do Norte, que foi acusado pelo afundamento da corveta sul-coreana Cheonan, e sabe de sobra que aquele navio de guerra foi afundado por uma mina que os serviços de inteligência ianques lograram colocar no seu casco, não esperará um segundo para atuar, tão logo no Irã se inicie o ataque.

É muito justo que os torcedores de futebol desfrutem as partidas da Copa do Mundo. Cumpro somente o dever de exortar o nosso povo, pensando sobretudo em nossa juventude, cheia de vida e esperanças, e especialmente em nossas maravilhosas crianças, para que os fatos não nos surpreendam, absolutamente desprevenidos.

Dói-me pensar em tantos sonhos concebidos pelos seres humanos e as assombrosas criações de que foram capazes em apenas uns poucos milhares de anos. Quando os sonhos mais revolucionários estão se cumprindo e a Pátria se recupera firmemente, como eu gostaria de estar equivocado!

Tradução: Mario Drumond
Revisão: Frederico de Oliveira

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Gazeta em forma de e-meio – Ano Novo 2010

Regalo de Ano Novo

O Sistema Nacional de Orquestras Juvenis e Infantis da Venezuela já se destacava pela nobreza, qualidade e importância da iniciativa desde que foi assumido pelo maestro José Antonio Abreu, há 35 anos. Nos últimos dez anos, recebeu da Revolução Bolivariana um impulso de tal ordem que o transformou em fenômeno mundial.

Segundo o site do Sistema (http://www.fesnojiv.gob.ve), atualmente participam 350 mil jovens e crianças que frequentam seus 180 núcleos de formação musical distribuídos em todo o país. No concerto de estréia do primeiro Centro de Ação Social pela Música, um portentoso edifício de 11 andares inaugurado ano passado em Caracas, que abriga uma enorme sala de concertos super bem equipada e especialmente projetada para execução de performances orquestrais, o presidente Hugo Chávez autorizou recursos para a construção de edifícios semelhantes em cada uma das 24 capitais dos Estados (nove deles já com obras iniciadas), a ampliação da capacidade para até um milhão de jovens e crianças e a criação de tantos núcleos quanto sejam necessários. A formação artística e musical é inteiramente gratuita e aberta a toda criança ou jovem com inclinação para a arte, e, à medida que evolui e se integra no processo, o aluno vai recebendo vários incentivos, como bolsas de estudo, instrumentos musicais, inclusão em conjuntos locais e regionais, colocações profissionais, etc.

“Venezuela semeada de orquestras” é o lema do Sistema que conta com o apoio total do governo revolucionário, o qual fez até aprovar legislação para que cada município, estados e nação sejam obrigados a constituírem suas orquestras, coros e outras formações musicais, em quantidades e dimensões proporcionais ao número de habitantes e aos respectivos orçamentos, criando assim o mercado de trabalho capaz de abrigar o grande número de profissionais que vão sendo formados.

Os resultados do gigantesco investimento não se fizeram esperar: o Sistema mantém hoje nada menos que oito grandes agrupações orquestrais e corais de renome mundial, e a principal delas, a Sinfônica Jovem Venezuelana Simón Bolívar, depois de sucessivas e ovacionadíssimas turnês nos EUA e na Europa, foi incluída pela crítica internacional entre as cinco principais orquestras do mundo.

Ao lado da China, a Venezuela tornou-se um celeiro de músicos de alta qualidade e muitos dos talentos ali revelados já possuem currículos de celebridades internacionais da música contemporânea, erudita e popular, com destaque para o regente Gustavo Dudamel, de 28 anos, que é considerado, sem favores, o maior maestro jovem do planeta e um dos mais importantes diretores de orquestra em atividade na música erudita contemporânea. Sua formação foi feita integralmente pelo Sistema.

Veja a apresentação de lançamento do seu álbum com a Sinfonia Nº 5, de Mahler, pela Deutsche Grammophone: http://www.youtube.com/watch?v=4exocK5kB9w&NR=1

Pelo incalculável valor de seu trabalho de educação musical, o maestro José Antonio Abreu tornou-se também um dos nomes da música erudita mais celebrados em todo o mundo, e tem recebido inúmeras e importantes premiações e condecorações por toda parte. Veja o seu depoimento, na ocasião em que recebeu o prêmio TED, que lhe foi concedido pelo município de Los Angeles, EUA, em fevereiro deste ano: http://www.youtube.com/watch?v=Uintr2QX-TU&annotation_id=annotation_740530&feature=iv

O governo da Venezuela estimula o Sistema a exportar gratuitamente a experiência e os métodos nele desenvolvidos e várias cidades, estados e países já começaram a implantá-lo, com a sua consultoria sem ônus, nos EUA, Europa, Rússia, Cuba e outros países da América Latina. Foi oferecido diversas vezes ao Brasil, inclusive com turnês da mais famosa de suas orquestras e o mais destacado de seus maestros, mas parece que o “sistema” daqui não achou boa idéia. Infelizmente.

O maior sonho deste gazeteiro é que a infância e a juventude brasileiras tivessem a mesma chance dos muchachos venezuelanos, em escala nacional.

Por isto, a equipe da Gazeta, formada por este gazeteiro e Fredera (responsável pela sugestão deste regalo) oferece aos leitores um brinde para este fim de ano e começo de década: o Concerto de Ano Novo 2008, completo, da Sinfônica Jovem Venezuelana Simón Bolívar, com a regência de Gustavo Dudamel, realizado em janeiro do ano passado, em vídeos muito bem gravados pela DW-TV (alemã) que podem ser acessados nos links abaixo, ordenados pela Gazeta na mesma sequência do programa e com os principais créditos artísticos.

É bom de ouvir, é bom de ver, é bom saber.

Ajustem seus fones de ouvido, e boa viagem!


Abraços

Mario Drumond


Concerto de Ano Novo da Sinfônica Jovem Venezuelana Simon Bolívar (SJVSB)

Realizado na sala de concertos do Centro de Ação Social pela Música de Caracas, em 1 de janeiro de 2008. Gravado ao vivo pela alemã DW-TV.

Vídeo 1 (Introducão - ao final deste vídeo, automaticamente se transferirá para o seguinte, e assim, sucessivamente, até o fim do concerto; os demais links seguem para publicar o programa e para o acesso direto a cada performance)

http://www.youtube.com/watch?v=7myRxFGatro&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=0&playnext=1


Vídeo 2 ("Gran Fanfarria", de Giancarlo Castro, com o conjunto de metais da SJVSB)

http://www.youtube.com/watch?v=C1CIlc88LAM&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=1


Vídeo 3 ("Guerra de Secciones", de Félix Mendoza, com o conjunto de metais e percussão da SJVSB)

http://www.youtube.com/watch?v=YQWX6uj-_YI&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=2


Vídeo 4 ("Sensemayá", de Silvestre Revueltas)

http://www.youtube.com/watch?v=BHZE0t10qpA&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=3


Vídeo 5 ("La Conga del Fuego", de Arturo Márquez)

http://www.youtube.com/watch?v=a5mutfzl6qg&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=4


Vídeo 6 (três mambos: "Que Rico el Mambo", "Mambo Nº 5" e "Mambo Nº 8", de Dámaso Pérez Prado)

http://www.youtube.com/watch?v=GouLmkd8HHI&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=5


Vídeo 7 ("La Cabra Mocha", de Pradelio Hernández, com Aléxis Cárdenas Ensamble: Aléxis Cárdenas, Violino; Diego Álvarez, Cajón; Jorge Glem, Cuatro; Gonzalo Teppa, Contrabajo)

http://www.youtube.com/watch?v=TL20cu-QEmI&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=6


Vídeo 8 ("Viajera del Río", de Manuel Yánez e "Vôo da Mosca", de Jacob do Bandolin, com Alexis Cárdenas Ensamble)

http://www.youtube.com/watch?v=K8eVLjH_O40&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=7


Vídeo 9 (Parte 1: "Fuga con Pajarillo", de Aldemaro Romero; solista: Alexis Cárdenas, violino)

http://www.youtube.com/watch?v=j-wXk5R77bE&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=8&playnext=9&playnext_from=PL

Vídeo 10 (Parte 2: "Fuga con Pajarillo", de Aldemaro Romero; solista: Alexis Cárdenas, violino)

http://www.youtube.com/watch?v=qGm5UNtZ6YM&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=9


Vídeo 11 ("La Muerte del Ángel", de Astor Piazzolla, com o Conjunto Atalaya, formado pela Seção de Percussão da SJVSB)

http://www.youtube.com/watch?v=58CKaJKg-Uc&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=10


Vídeo 12 ( "Mambo", de Leonard Bernstein, das Danças Sinfônicas de "West Side Story", versão do bis)

http://www.youtube.com/watch?v=mUKWo6M6NPY&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=11


Trailer de "A promessa da música" (Documentário de Enrique Sánchez Lansch, produzido pela DW-TV, Alemanha, 2008)

http://www.youtube.com/watch?v=G3AWMSVNWCs&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=12

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Gazeta em forma de e-meio 111 – Especial

Caro José Sette,

Respondo, pela Gazeta, ao seu texto de justo desabafo, que segue na íntegra (e com os erros corrigidos), porque creio que o papo seja de interesse geral e as informações nele contidas são importantes e devem ser divulgadas. Suprimi apenas a crítica de Luiz Rosemberg, pois já a publiquei aqui. Começo por uma frase que o saudoso Rogério Sganzerla gostava de citar, parafraseando Fidel Castro, mesmo sabendo que ela não diminuirá o seu desânimo e até corro o risco de que ela o aborreça ainda mais.

Mas vou insistir: “a História está a nosso favor”.

Com ela, eu quero lembrá-lo de que você não está só, que o seu caso não é único e que eu me considero tão penalizado quanto você e os demais companheiros que atravessamos o interminável deserto sem miragens (isto é, sem visões, sem cinema) em que se transformou a comédia desumana da criação nacional, na infeliz quadra das três últimas décadas.

Não é que antes estivéssemos em terras férteis; já nos havíamos com um deserto, mas, com belas miragens e alguns oásis. Lembro-me bem que, juntos, no último oásis em que se constituiu a Oficina Goeldi, quando, em 1980, abrigou o Encontro de Cinema Independente que o Sylvio Lanna agitou aqui em BH, tentamos – e conseguimos – plantar coisas, e fazê-las vingarem. Nós, que na juventude recusamos vender nossas almas ao diabo acreditando que seríamos capazes de resgatar o mundo de suas mãos, enfrentávamos de peito aberto todas as tormentas, e de muitas saímos vitoriosos – e como! E foi assim, cada um por sua via, mas ambos crédulos, sem mais nada a não ser a confiança em si mesmos, é que adentramos corajosamente o deserto, esse labirinto sem paredes, em que ainda permanecemos buscando uma saída.

Quando, depois de alguns passos irreversíveis na aridez espinhosa em que nos metemos quase sozinhos, percebemos a derrota, até tentamos negociar com o diabo, mas era tarde... Eu, mudando-me com a Oficina Goeldi para São Paulo e, anos depois, para o Rio. Você, entregando de mão beijada a sua obra cem por cento brasileira e a sua própria carreira de cineasta nas mãos de Mefisto em pessoa, na doce crença, talvez por não ver outra alternativa no horizonte, de que, por um milagre que jamais aconteceu, ele se tornaria o seu anjo da guarda. A ambas, obra e carreira, Mefisto desde então sequestrou do público (pagante e não pagante). O inferno só negocia com carne fresca e tenra, José, e nós já estávamos para lá de maduros. Mesmo sabendo que este inferno latino-americano é um inferno subdesenvolvido, morno e que só tem para negociar mal resolvidas questões de pecúnia (nunca a Glória – esta é capital exclusivo dos diabos do norte), nós queríamos, sim, e tentamos negociar. E só conseguimos a lista negra, compadre.

No entanto, se não podemos culpar a ninguém, exceto a nós mesmos, pelos dissabores que sofremos, não caminhamos em vão: se ainda não vingaram nem deram frutos os nossos plantios dessa quadra, a verdade é que em nenhum momento deixamos de cultivar sementes raras, bravas e resistentes que haverão de brotar mesmo no deserto e alimentar os passos peregrinos dos que virão depois de nós. É a História. Nós enganamos o diabo, José. Amaxon é filme para uma platéia futura, a que um dia renascerá da que morreu com Glauber Rocha, em 1981.

Cuba tem sérios problemas estratégicos para enfrentar e não pretende aumentá-los escolhendo filmes brasileiros para seus festivais de cinema. Mais fácil para Cuba é deixar que o diabo daqui o faça. Por sinal, o mesmo que decide quais filmes entram no festival potiguar, no das peruas de Tiradentes e no de Quixeramobim. Você crê que alguém decide o que da produção nacional vai ser exibido nas telas, as pequenas e as grandes, daqui e de fora, a não ser ele (ou “eles”, como diria o Fredera)?

Recordo-me que, no Encontro de Cinema Independente, era forte o espírito do Glauber, mesmo sem que estivesse presente, e o Sérgio Santeiro fez uma inesquecível defesa da obra dele, desfazendo muitos dos aspectos negativos da criativa polêmica que então se travava entre Glauber e os independentes, com as proas de Júlio e de Rogério.

O Festival de Brasília de 1981, que, com Um Sorriso Por Favor, ganhamos com valentia oswaldiana e glauberiana, foi o primeiro sem Glauber, que fora assassinado há poucos meses, e ali percebemos, como nunca antes, a falta que ele fazia (e faz!). Glauber possuía o dom inigualável de denunciar, desmascarar e desmontar, com impiedosa habilidade, toda a charlatanice velhaca dos que tentam frustrar, fraudar ou mudar a História, como os atuais organizadores de festivais que nada sabem ou não aprenderam daqueles que os antecederam e que deveriam reverenciar - para citar só alguns: Cosme Alves Neto, Wilson Coutinho, Frederico Morais, Ronaldo Brandão, entre outros mestres em arte e cinema que tivemos o privilégio de conhecer de perto, e recebendo deles a consideração e a admiração com que sempre contemplaram a nossa ousadia criadora.

O que já é definitivamente História e que muito nos orgulha. Por que alguém tentaria frustrar, fraudar ou mudar a História, se nenhuma dessas pretensões é possível de realizar-se, uma vez que o passado é imutável?

Elementar, meu caro leitor: é que a História está contra “eles”.

José, receba a solidariedade deste seu companheiro de sucessos e desditas; você, exímio escritor audiovisual, não precisa se desculpar por erros de ortografia e digitação.

Um forte abraço do

Mario Drumond


Segue a íntegra de seu desabafo:


AMAXON

Não queria mais falar sobre o complexo e misterioso sistema que movimenta o cinema brasileiro, mas, com as últimas notícias recebidas, não posso me furtar a algumas verdades e tenho que escrever, talvez, um último libelo sobre a ignorância dos organizadores de mostras e festivais de cinema por todo o país e também no exterior.

O cinema, para mim, mais que a literatura, é uma leitura sofisticada do saber humano aos olhos de um observador atento. Um observador que saiba ver e tenha visões.

Alguns observadores são distintos: um intelectual bem informado; um bom artista; um ser inteligente, alguns pretensiosos, outros destrutivos; um crítico pernóstico, invejoso; um taumaturgo apaixonado pela magia do audiovisual; um déspota disposto a por fogo em Roma; um anarquista desordeiro; um músico sensível e outro ordinário; um pintor de quadros e outro de paredes; um burocrata arrogante; um profissional libertino; um liberal punheteiro; prostitutas e madames, autores e estrelas. Qual destes personagens viu Amaxon?

Para cada espécie de observador existe um texto, um filme específico, que na certa ele vai se identificar e gostar, mas a grande maioria dos que observam a grande tela são diletantes, pessoas que entram na sala de cinema levadas pela mídia, hoje massacrante, das grandes empresas de comunicação.

Essas pessoas, da classe média, que não passam de 12 milhões de espectadores, fazem o público alvo para os grandes sucessos dos filmes nacionais e estrangeiros. São eles que geram o aumento da fortuna daqueles privilegiados que já estão muito ricos, produtores e exibidores, pois continuam produzindo no Brasil os seus filmes comerciais com os milhões necessários da renúncia fiscal. Pergunto: por que não se cria um cine-banco de investimento para os filmes que pretendem conquistar o grande público?

O processo político-cultural precisa urgentemente de uma reforma de base.

Digo isso para mostrar que os festivais de cinema no Brasil, também produzidos com valores superiores a um milhão de reais e incentivados com dinheiro da renúncia fiscal, deveriam continuar a existir, mas redirecionados ao observador atento às novidades do mundo cinematográfico, atento para o novo, em termos de estética e de linguagem, e tudo mais que o cinema contemporâneo e de invenção feito no país está criando - são geralmente filmes de baixíssimo orçamento, novos e experimentais -, e não unicamente direcionar o olhar inteligente para os filmes que têm todas as mídias à disposição, com lançamento simultâneo em salas por todo Brasil. Para que eles precisam dos festivais?

Não estamos falando de impedir que as grandes produções sejam exibidas nos grandes e pequenos festivais - são mais de cem festivais no Brasil -, mas, sim, de que cada festival tenha espaço para o cinema inventivo, visionário, poético, diferente daquilo que o público está acostumado. Um cinema de artesão. Na questão do filme Amaxon, meu único interesse era de exibi-lo, de graça, para um público seleto que freqüenta os festivais – nada mais.

Nunca se deveria recusar a exibição de um filme como este, que é, no mínimo, uma nova contribuição ao pobre universo das artes cinematográficas brasileiras, especialmente por ele ter sido realizado por um diretor – produtor – fotógrafo – roteirista – editor experiente e consagrado, com mais de vinte filmes de longa, média e curta metragem produzidos, alguns deles até bem premiados. Alguma coisa anda errada com as cabeças do poder neste país.

Faz muitos anos que não mandava meus filmes a nenhum festival de cinema. Eu já sabia quais eram os critérios adotados por todos eles – a exibição e seleção única dos filmes que possam interessar ao grande público, excluindo todos os outros que possam criar polêmicas desnecessárias e incômodas para a indústria do entretenimento.

Por insistência da família, preocupada com o meu isolamento, pedi ao jovem fotógrafo do meu filme que remetesse um DVD para os últimos três festivais que, no final deste ano, apresentavam-se abertos a novas inscrições. Pareceu-me interessante a experiência: Cuba – Natal – Tiradentes. E me preparei para o pior, pois fico arrasado quando recusam o óbvio irrecusável.

É quase um acinte: o filme foi sumariamente recusado, como eu previa, pelos três festivais.

Recusado três vezes pela ótica mercantilista, retrógada, mesquinha, insensível, colonizada, cega e estúpida de observadores de porta de festival, desatentos; principalmente os nacionais, como os de Natal e de Tiradentes. Pensando bem, eles estão certos em recusar o meu filme – polêmico, anarquista, novo, inteligente, poético, inventivo, provocador – diferente de tudo que tenham assistido.

Amaxon, para um amador, é hostil, hermético; é difícil aceitá-lo. Eu é que estou errado em ter mandado às considerações deles minha pequena obra-prima. Mas a recusa de Cuba, em mim, foi a que causou o maior espanto. Eles podiam até não gostar do filme, talvez, por não entenderem ou se sentirem agredidos com o enorme caralho que avança na mão de uma donzela angelical, numa dança erótica, em direção ao assustado burguês. Ou, quem sabe, chocados com a poesia louca, abstrata e inventiva da criação? Mesmo assim não tinham o direito de excluir um filme que é libertário, e também de vanguarda, e posso até dizer, comunista, pois trata o texto poético do massacre capitalista contra a liberdade de criação de uma escritora, uma artista, encurralada pela vida.

Espero que a cópia em DVD deste filme caia em boas mãos, nos bastidores da burocracia e seja pirateado, para que muitas pessoas, independente da censura dos festivais, possam assisti-lo. Pois, na certa não ficarão imunes ao que ele tem para dizer.

Quanto a vocês, organizadores de festivais estatais do cinema brasileiro, que nunca fizeram cinema, mas que vivem e muito bem dele e estão sempre acompanhados por jovens burocratas da arte, vampiros oriundos das universidades dos picaretas, vips que se espalham pelos brasis afora, viajando como consultores, censores, selecionadores, jurados e professores de oficinas de cinema, que vivem às custas do erário e que são muitas vezes também financiados por fundações estrangeiras e hostis aos interesses nacionais, é preciso que aprendam a respeitar os artistas mais velhos, os que ainda permanecem rebeldes e iconoclastas, mesmo sem compreendê-los, pois eles representam o seu futuro.

Cabo Frio, dezembro de 2009.

José Sette

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Gazeta em forma de e-meio 110 - Especial

Os dois “Pepes” de 29 de novembro

Magistral! É a palavra (com a exclamação) que, na opinião deste gazeteiro, melhor poderia definir a cobertura da TeleSur das duas eleições, melhor dizendo, duas sagas de dois povos tendo por motivo central pleitos presidenciais, ambas importantíssimas para as Américas e o mundo e que se deram domingo passado. Uma no Uruguai e a outra em Honduras. Foi uma aula de jornalismo televisivo da melhor qualidade, e este que aqui escreve, declara, de início, que foi a primeira vez em sua vida que presenciou algo dessa envergadura por televisão, em todos os planos de competência em que podem interatuar o tema e a linguagem: o político, o jornalístico, o intelectual, o profissional, o técnico, o tecnológico, o informativo, o audiovisual e, especialmente, o histórico.

A TeleSur distribuiu bem equipadas e bem preparadas equipes de reportagem nas capitais e em diversos pontos estratégicos do interior dos dois países. Ancorada em Caracas por alguns de seus melhores profissionais de comunicação, muito bem assessorados por analistas e comentaristas do mais alto nível e por uma editoria de pesquisa cuja eficiência e agilidade deixam no chinelo as “grandes” redes mundiais, ela foi capaz de narrar com uma incrível precisão jornalística e com uma impressionante qualidade editorial tudo o que de mais importante, de mais relevante, de maior interesse e de fundamental valor noticioso e informativo ocorreu nas vinte e quatro horas daquele dia histórico, nos dois países, e, praticamente, em tempo real. Demonstrou, assim, que o veículo televisivo, quando utilizado para as suas finalidades mais nobres e essenciais e por uma consciência profissional dedicada, capaz e incorruptível, é uma das mais valiosas ferramentas de libertação através do conhecimento e da informação que a Humanidade jamais teria construído para si mesma. E talvez a mais eficaz.

A História também colaborou enormemente para que os acontecimentos se tornassem mais interessantes e desafiadores ao gigantesco esforço de cobertura a que se propôs a TeleSur e também para que, somente ela, entre todas as demais empresas do gênero em todo o mundo, fosse capaz de enfrentá-lo e vencê-lo com tamanho sucesso.

É que, por uma coincidência sem precedentes, pelo menos até onde pode alcançar a memória deste gazeteiro, nos dois países, situados geograficamente quase que nos extremos opostos do continente latino-americano, e no mesmo dia, aconteceram, em simultâneo, duas jornadas eleitorais de natureza completamente distintas. Dir-se-ia, tal fora o contraste entre os dois acontecimentos, que um era o negativo do outro.

No Uruguai, sulista e oriental, dava-se uma verdadeira festa democrática: era o segundo turno de uma campanha eleitoral que brilhou por suas virtudes realmente democráticas, apesar da desigualdade midiática em favor do candidato derrotado contra o vitorioso candidato das massas populares, apoiado pelo atual governo. E o presidente em exercício, Tabaré Vasquez, deu declarações no local onde votava.

Em Honduras, centro-americana e caribenha, o Império investia todas as fichas que ainda lhe restam de prestígio e força política em Nuestra América numa ditadura que tentava uma farsa eleitoral para se legitimar como “poder democrático”, contra as massas populares revoltadas pelo golpe de Estado que depôs o presidente que elegeram e lhes impôs um estado policial cuja crueldade, estupidez e violência só são comparáveis aos registros mais conspícuos de desumanidade genocida que se conservam na memória histórica das tragédias coletivas. E o presidente deposto, preso na Embaixada do Brasil em Tegucigalpa, ilhada por centenas de militares fortemente armados e com ordens de matá-lo se pisar um pé fora da embaixada, não pôde sequer exercer o direito de votar.

Em comum, nos dois casos, como magistralmente demostrou a TeleSur – com forte impacto mundial que foi capaz até de alterar a agenda da cúpula ibero-americana que se inaugurava também, no mesmo dia, em Estoril, Portugal, e na qual o tema de Honduras estava sendo relegado a planos secundários por inciativa imperial – foi a pujança dos dois povos dos dois pequenos países na luta heróica que travaram, em simultâneo e igualmente inarredáveis no propósito decidido de conquistarem soberania e liberdade.

A grande façanha da TeleSur residiu, principalmente, na competência jornalística de trazer toda a substância da verdade contida nos três parágrafos acima de forma plena e indiscutível. Seus repórteres foram a todas as instâncias do fazer político: movimentos sociais, sindicatos, lideranças de todos os matizes ideológicos e classes sociais, políticos do governo, da oposição e independentes, militares, autoridades e populares de vários níveis hierárquicos e sociais, formando um painél de grande riqueza documental acrescido ainda de material colhido em veículos de mídias comunitárias e alternativas, da mídia hegemônica ou produzido pela própria editoria de pesquisa com vasta iconografia, info-gráficos, filmes de arquivo e o escambáu.

No Uruguai víamos imagens mais comuns ao tipo de evento: muitas bandeiras tremulando, povo nas ruas dançando e cantando lemas e refrões de campanha, agitação nas praças, alegria da vitória e choro da derrota. O carismático líder revolucionário José “Pepe” Mujica, ex-tupamaro, ex-guerrilheiro, preso político por 16 anos, 13 dos quais incomunicável e em regime de solitária, foi o grande vencedor do pleito, com 53% dos votos, contra o oligarca Luis Alberto Lacalle (42%), que, aliás, soube digerir a derrota com a nobreza de um belo discurso de reconhecimento da vitória de seu oponente. Um comparecimento maciço de quase 90% dos eleitores cadastrados auferiu uma legimitade democrática sem precedentes ao resultado do pleito naquele país.

Em contraponto, Honduras vivia uma caricatura pseudo-eleitoral jamais vista em lugar algum. Militares, policiais e mercenários ocupavam as ruas vazias e, se alguma manifestação popular surgisse diante deles, caíam de pau violentamente, atacando-a com jatos de água, bombas de gás, cacetetes e a tiros de bala de borracha e até de balas verdadeiras. Pelo menos um morto, mais de 40 desaparecidos (inclusive crianças) e cerca de três centenas de presos foi o saldo da repressão naquela jornada, dado ainda como parcial por órgãos da resistência e entidades de Direitos Humanos. Os eleitores se recusavam a sair para votar e houve comandos de policiais e de civis armados, os “camisas brancas” (e “calça de qualquer cor”), que os tiraram de casa à força de bombas de gás lacrimogêneo lançadas dentro de seus lares para os levarem às urnas a ponta de fuzil. Desesperados com a abstenção quase total e flagrante, diante de todos os veículos de imprensa presentes, o Tribunal Eleitoral chegou a mudar as regras no meio do jogo e, alegando que não havia mais a tinta indelével com a qual os eleitores deveriam marcar os dedos quando votassem para que não pudessem votar duas vezes, aboliu a necessidade dela, e nisso já passava do meio-dia. Dessa forma, além de facilitar a fraude, neutralizava-se a “manifestação das mãos limpas” que o povo prometia para depois da jornada, exibindo-as, em multidão, à imprensa.

Os comitês de Direitos Humanos que monitoravam por amostragem os locais de votação acusavam uma presença de apenas 17% dos eleitores às duas da tarde, número que subiu para 22% ao final da jornada, mas com denúncias de gente votando até seis vezes na mesma urna e de caminhões e ônibus trazendo salvadorenhos e gualtemaltecos para votarem nas cidades fronteiriças. Pouco antes de fecharem as mesas, a TeleSur mostrou muitas urnas, que eram transparentes, quase vazias. Nenhum órgão idôneo de observação eleitoral aceitou participar da farsa, e os golpistas então convidaram um bando de empresários, mafiosos, narcotraficantes, políticos corruptos, congressistas republicanos dos EUA, lacaios de países diversos, e outras lindezas “democráticas” para exercerem o papelão. Para se ter uma idéia mais amena da qualidade dessa “observação eleitoral”, o “representante” brasileiro convidado foi o deputado federal Raul Jungmann. “Tudo pela democracia!”

Às seis da tarde, Manuel Zelaya falava com a TeleSur por internet e dizia que o Comando da Resistência, através de monitoramento em todas as urnas, verificara um índice de abstenção entre 65% a 70% dos eleitores cadastrados. Os golpistas só apareceram em cena nas primeiras horas do dia, com Micheletti, cercado por vasto esquema de segurança militar, sorridente e exibindo cinicamente para a imprensa o dedo mindinho da mão direita sujo de tinta indelével. Depois, desaparareceram e não eram encontrados em lugar nenhum. Nem os candidatos que aceitaram participar da farsa eram vistos nas ruas ou encontrados pela imprensa. Simplesmente sumiram.

As matérias produzidas na praça em frente ao Tribunal Eleitoral eram feitas por repórteres solitários; não havia uma alma nas ruas de Tegucigalpa, que era um deserto já às oito da noite. Os golpistas só apareceram novamente depois da meia-noite, numa sessão do Tribunal Eleitoral, que mais parecia um velório, para informar à imprensa e “ao mundo” que as eleições foram um “êxito total” com o “comparecimento maciço do eleitorado”, o qual alcançara 61% de presença nas urnas, fato inédito naquela república de bananas, onde o máximo até hoje alcançado foi de 55% dos eleitores na eleição de Zelaya, em 2004, e que, pelas imagens de arquivo exibidas pela TeleSur, transformou Honduras numa só festa popular, com o povo todo vestido de vermelho inundando as ruas de Tegucigalpa e das cidades do interior. Pouco depois daquela “sessão maldita”, o Tribunal declarou a “vitória” de Porfírio “Pepe” Lobo, um empresário mafioso local, com 38% dos “votos válidos”, sem contudo dizerem quantos eram esses votos.

Imediatamente após o comunicado, esse tal “Pepe” recebeu os parabéns e o reconhecimento da sua vitória eleitoral, “pela livre e soberana escolha do povo hondurenho e dentro da mais absoluta normalidade democrática”, por parte dos EUA, Israel, Colômbia, Costa Rica e Panamá, ou seja, quase todo o “eixo do bem”.

Mas de tal “êxito”, eles, os golpistas, os seus mentores e os seus “eleitos”, não têm foto, não têm vídeo, não têm festas, não têm testemunho idôneo. Só o que possuem são as fraudes inconstitucionais, descaradas e falsificadas, desde a célebre “carta de renúncia” de Zelaya, os encômios de seus próprios e desacreditados veículos de mídia, e... a Quarta Frota, esta, sim, como diria o velho Sette de Barros, “um argumento de peso”.

Quanto ao “Pepe” uruguaio, cercado por centenas de milhares de seus compatriotas em meio a festejos e foguetórios até altas horas da madrugada em Montevidéu, debaixo de uma chuvarada, desses países que se proclamam exemplos de democracias, nem um “boa sorte” recebeu. Mas a internet foi inundada de mensagens de congratulações por parte das democracias do mundo, encabeçadas pelos países da Alba e América Latina.

No excelente programa de fechamento do intenso dia de trabalho da TeleSur, moderado pela bela e inteligente Patrícia Villegas, e com a participação de vários escritores, intelctuais, jornalistas, artistas e políticos das três Américas e até de Eduardo Galeano, que ainda há pouco tempo se recusava a dar entrevistas a televisões, numa síntese das imagens do dia e nos comentários lúcidos de todos concluiu-se que aquele fora um dia de grande vitória popular nos dois países. E ontem, segunda-feira, Tegucigalpa foi completamente ocupada pelo povo em uma imensa passeata na qual o Comando da Resistência proclamava a sua vitória pela abstenção popular e o não reconhecimento das eleições, as quais considerava um “novo golpe de Estado”. A luta continua.

A Gazeta agradece, TeleSur, e dá os seus parabéns pelo trabalho. Magistral!.