Reflexões do gazeteiro (continuação)
Foi com um desses filósofos clássicos, acho que Dilthey ou Spinoza, que aprendi serem os trabalhos pioneiros das diversas disciplinas das “ciências do espírito” (termo diltheyano) portadores dos fundamentos que as regem, fora dos quais qualquer trabalho posterior se perde em desvios sem saída e até na própria negação da disciplina a que pretende aportar contribuição. Sendo o jornalismo uma dessas disciplinas, creio que a abordagem dos fundamentos revelados por seus pioneiros poderá ser um bom ponto de partida para uma reflexão sobre o que ocorre no jornalismo atual.
Com o advento da internet, o jornalismo, digamos, acadêmico, que era considerado historicamente descendente do jornalismo pioneiro, foi corrompido pelo mercantilismo e contaminado pela propaganda, o que resultou na sua senilidade seguida de lenta agonia, e veio a falecer completamente. Ao mesmo tempo, renasce, em sua essência original, um jornalismo “novo” que cresce e se espalha em inúmeros sites, blogs e outros dispositivos da internet, retomando os fundamentos do jornalismo pioneiro e as razões que deram existência a essa importantíssima disciplina do conhecimento.
Sem compromissos acadêmicos nas análises da história, a Gazeta tem uma leitura própria sobre os fundamentos originais do jornalismo, os quais, para ela, responderam a uma necessidade social libertária contra a opressão capitalista, já nos meados do século XVII. A manipulação dos oprimidos sempre foi uma constante nos regimes patriarcais, onde prevalecem a propriedade privada da terra e a divisão da sociedade em classes. A tática mais comum é a de usar as instituições acreditadas pelo povo; manipulando-as, iludem a boa fé da credulidade popular. É mais antiga do que se pensa a história da “roupa do Rei”, a que Andersen daria forma literária definitiva.
A entrada em cena da Revolução Industrial agudizou o problema. A necessidade de estar informado passou a ser crucial para formar opinião e tomar decisões, em níveis individuais e coletivos. As sociedades não podiam ficar à mercê dos exploradores e enganadores de ofício nem depender de uma criança espirituosa que as avisasse dos engodos. É, pois, na demanda por informação veraz e com análise crítica, a denúncia, que nasce o jornalismo pioneiro, na espontaneidade das gazetas em forma de carta, primeiramente copiadas e remetidas a diversos destinatários, depois impressas, multiplicadas e lidas em praças públicas para logo se tornarem periódicas, bimensais, mensais, quinzenais, semanais até se configurarem nas gazetas “del giorno”, isto é, os diários, os jornais.
Um bom exemplo dos primórdios do jornalismo em nossa língua foi a “cobertura” dada em Portugal às diversas viagens a Lisboa do brasileiro Bartolomeu de Gusmão, o nosso “Padre Voador”, em particular nas gazetas em forma de carta de José Soares da Silva, um dos mais importantes gazetistas europeus dos fins do século XVII e início do XVIII.
Desde a primeira viagem, em 1701, o ainda adolescente Bartolomeu de Gusmão causara assombro no reino de Portugal pela fama que por lá se espalhou de sua prodigiosa inteligência, capacidade de memória e talento (vamos manter a grafia original de Soares da Silva), “pois de 15 para 16, dizem que sabe o que contem a memória infra inscripta; o que parece excede a capacidade do tempo, ainda que fosse imprimindo-lhe fielmente na memória tudo quanto lesse, sem lhe discrepar hum apice, como dizem que ele faz, e lhe fica tudo quanto hua vez passou pelos olhos”. A história não confirma nem desmente o prodígio do qual desconfia o gazetista, mas o fato é que o nome do jovem volta às “manchetes” européias em 1709, desta vez com uma verdadeira bomba, assim noticiada pelo mesmo gazetista, quando relata a chegada daquele “celebre estudante americano, que aqui esteve annos atraz, não já para declamar de cór, de traz para diante e de diante para traz, as odes de Horácio e os livros da Escriptura, mas para impetrar d’El Rey D. João V, um inesperado e singular privilégio de invenção. (...) No mesmo tempo, em que temos tão poucos homens, que saibam andar pello mar, e pela terra se achou hu que quer andar pello ar, e fazer 200 legoas por dia, e para este effeito deo petiçam a Sua Magestade, em que produz o arbitrio e pedio privilegio, para que descuberto o tal arbitrio, e executado por elle lhe fizesse Sua Magestade alguas mercês”.
Nessas “200 legoas por dia” cresceram os olhos ganaciosos de muito interesse, e a “nuova navigazione per andare alle Indie senza toccare la Tramontana, mas direttamente per Levante” já era noticiada ao Papa, no Vaticano, e assim era defendida a petiçam do jovem gênio brasileiro pelos próceres chegados a Sua Majestade, pensando, claro, nos benefícios imediatos (mercês) que lhes seriam auferidos desde alí, ademais de sonhar com os futuros que colheriam a bastança se, porventura, estivessem diante de um novo Vasco da Gama: “... por que enteressa a Vossa Magestade muito mais do que nenhum dos outros Principes, pella Mayor distancia de Seus dominios, evitandose desta Sorte, os desgovernos das Conquistas que provem em grande parte chegar muito tarde as noticias dellas. Além do que poderá Vossa Magestade mandar Vir o precioso dellas, muito mais brevemente e mais Seguro ...”
Quer dizer, a mordida no erário já estava preparada, já começava a ser dada pelos que podiam fazê-lo de imediato, e iria longe, muito longe, o engodo na “opinião pública” (como hoje sabemos que podem ir até ao infinito) para respaldá-lo, não fosse a denúncia do gazetista ao reportar as primeiras experiências da invenção que a Europa toda aguardava ansiosa - pois na época a simples possibilidade do transporte aéreo era equivalente à do transporte intergalático hoje -, nesta obra prima do jornalismo pioneiro:
“El Rey os dias passados também o apertou de sorte a falta de respiração que lhe sobreveyo á sua queixa que a toda a pressa o sacramentaram de noute. Porém com a nova cura que fez logo, está com conhecida melhoria em hum e outro achaque e já anda erguido e composto; como assistio a varias comedias que agora se fizeram no Paço. E hum dia destes ao Voador, que, na sua presença, na casa do Forte debaixo da das embaixadas, foy fazer a primeira prova do seu engenho, levando para isto hum globo de papel o qual dizia elle, por si mesmo se havia de elevar aos ares, mettendo-lhe dentro hua vela acesa, e fazendo a primeira vez, voou elle com brevidade, porque lhe pegou o fogo, e ardeu inteiramente, e para isto ha mais de quatro mezes que anda trabalhando nas taes fabricas, o que pudera fazer em quatro horas, ao menos, ou ao mais em 24 como fez no segundo globo, que levou no segundo dia ao Paço, o qual se não ardeu como o primeiro, fez o que qualquer fizera porque gastando pela luz o ar, que continha dentro o globo, o ar ambiente natural muito o arrebatou ao alto da casa como não tinha outra materia mais que papel, e assim tornou outra vez a descer como subira, sem fazer mais nada que he o que basta, para andar duzentas légoas por dia, e levar as quarenta arrobas de peso. Se isto não se vira não se crêra.”
Por mais impiedosa seja a verdade, é dever do jornalista enunciá-la. A verdade é a matéria prima do jornalismo, assim como a luz é a da fotografia. Mesmo que o nosso desejo patriótico fosse o de que Bartolomeu de Gusmão fosse reconhecido como o precursor da aeronáutica, depois da contundência do relato jornalístico de José Soares da Silva, queda inútil qualquer esforço neste sentido; não podemos reivindicar para o nosso compatriota sequer a invenção do balão de São João, pois foram imigrantes chineses que nos ensinaram a fazê-los, no Ciclo do Ouro, a partir de milenares tradições da cultura oriental. Assim, a verdade denunciada através do jornalismo é util não só aos contemporâneos como faz um grande favor à História. Ninguém quer ser enganado.
A Gazeta permanece no tema.
quinta-feira, 8 de outubro de 2009
sexta-feira, 2 de outubro de 2009
Gazeta em forma de e-meio 101
Reflexões do gazeteiro
Recordo-me, na minha juventude, de uma das inesquecíveis aulas de cinema de Ronaldo Brandão, no CESC-BH (Centro de Estudos Cinematográficos de Belo Horizonte), quando ele afirmou que o cinema verdadeiramente novo era o dos pioneiros e inventores da cinematografia, em fins do século 19 e início do 20, e dizia, a respeito dos filmes que nos fins da década de 1960 considerávamos como cinema de vanguarda ou cinema novo: “o cinema que hoje se faz já está caindo de maduro”.
Nunca me esqueço dessa lição, porque dou a ela o crédito de ter modificado radicalmente a minha visão do mundo. Fomos criados e educados no que poderíamos chamar de arrogância da contemporaneidade; consideramos o passado histórico como “velho”, “superado”, “obsoleto”, e a nós, os “contemporâneos” (de hoje e de sempre), como os “novos”, os “evoluídos”, os “vanguardistas”. Percebi então o tamanho do equívoco e que a verdade atribuída ao cinema podia ser estendida a toda a história e até à própria Humanidade, que hoje, por sua fração que se crê “civilizada”, demonstra sintomas de aguda e precoce esclerose, física e mental, a ponto de ser capaz de atentar mortalmente contra o próprio berço (entre o Tigre e o Eufrates) e contra si mesma.
Ao “Ocidente”, enquanto termo sociológico que ultimamente tem sido usado para definir a “nossa” civilização, cairia bem o verso imortal de Nelson Cavaquinho: “já vai muito longe a minha mocidade”.
Mas, tal como a arte, a Humanidade é imortal, pela simples razão de que não haveria ser humano para registrar sua morte, como não houve o que registrasse seu nascimento. Assim, ela se renova (renasce) em sucessivos ciclos de civilização que ocorrem nas coordenadas do espaço-tempo, às vezes, histórico; outras vezes, cósmico. Os pensadores mais lúcidos das últimas cinco décadas coincidem em conjeturar para exatamente agora, nesta quadra, o advento de um novo ciclo, em coordenadas ao mesmo tempo históricas e cósmicas. Oswald de Andrade (A crise da filosofia messiânica); Álvaro Vieira Pinto (A sociologia dos países subdesenvolvidos); Fritjof Capra (O ponto de mutação) - por exemplo. Mas, no momento atual, não precisamos da genialidade desses grandes pensadores para saber que estavam certos. Gramsci definiria este nosso tempo como o de transição entre o fim de um ciclo de uma civilização que ainda não terminou de morrer e o nascimento de um novo ciclo daquela que ainda está em trabalho de parto.
Interrompi a redação deste artigo para acompanhar, ao vivo e boquiaberto, o desfile de comemoração dos 60 anos da Revolução Chinesa, em Pequim, através da TV chinesa em espanhol (CCTV). Indescritível manifestação do povo que nos liderará neste novo ciclo: a China renasceu em 1949 e agora exibe a vitória de sua revolução para o mundo com a mensagem da liberdade conquistada por uma Pátria que hoje se demonstra invencível. Monumentalidade em proporções chinesas: 50 mil militares e 150 mil civis desfilaram, impecáveis, em frente ao retrato de Mao-Tsé-Tung, numa sequência poética e humanista que homenageou o pensamento do líder e a sucessão de conquistas do seu povo durante a República Popular por ele fundada. Igualmente chineses foram o bom gosto e a liberdade criativa, mesclando tradição, folclore, erudição e arte popular com requintes de artesanato, tecnologia, ousadia e plasticidade para vestir e cenografar o maior espetáculo coreográfico-musical que já se realizou neste planeta. Uma banda militar de dois mil músicos, a que se somavam milhares de tambores e percussionistas e um coral de 10 mil vozes, além de um super painel gráfico de 50 mil pessoas, fizeram o musical e o texto para o desfile gigantesco de 200.000 soldados-bailarinos-do-povo e incontáveis carros alegóricos, numa profusão de alegria e felicidade coletiva. O espetáculo de inauguração das Olimpíadas foi uma produção de pequeno porte em comparação à desse desfile.
Voltando à reflexão original que deu margem a este escrito, quero dizer que a Gazeta, desde o começo, e com seus modestíssimos recursos, se propõe a ser parte da Humanidade que renasce, em particular, no que diz respeito ao renascimento do jornalismo nacional, ao qual pretende aportar o seu grão de areia.
Terá o jornalismo nacional falecido? A resposta é sim, há algumas décadas; “e agora são os seus cadáveres que por aí perambulam”. O artigo de Michael Niman, publicado em português no site Resistir serve como atestado de óbito, e não somente para o jornalismo nacional. Recomendo-o: http://resistir.info/varios/morte_diarios.html.
As reflexões do gazeteiro continuam na próxima Gazeta.
Recordo-me, na minha juventude, de uma das inesquecíveis aulas de cinema de Ronaldo Brandão, no CESC-BH (Centro de Estudos Cinematográficos de Belo Horizonte), quando ele afirmou que o cinema verdadeiramente novo era o dos pioneiros e inventores da cinematografia, em fins do século 19 e início do 20, e dizia, a respeito dos filmes que nos fins da década de 1960 considerávamos como cinema de vanguarda ou cinema novo: “o cinema que hoje se faz já está caindo de maduro”.
Nunca me esqueço dessa lição, porque dou a ela o crédito de ter modificado radicalmente a minha visão do mundo. Fomos criados e educados no que poderíamos chamar de arrogância da contemporaneidade; consideramos o passado histórico como “velho”, “superado”, “obsoleto”, e a nós, os “contemporâneos” (de hoje e de sempre), como os “novos”, os “evoluídos”, os “vanguardistas”. Percebi então o tamanho do equívoco e que a verdade atribuída ao cinema podia ser estendida a toda a história e até à própria Humanidade, que hoje, por sua fração que se crê “civilizada”, demonstra sintomas de aguda e precoce esclerose, física e mental, a ponto de ser capaz de atentar mortalmente contra o próprio berço (entre o Tigre e o Eufrates) e contra si mesma.
Ao “Ocidente”, enquanto termo sociológico que ultimamente tem sido usado para definir a “nossa” civilização, cairia bem o verso imortal de Nelson Cavaquinho: “já vai muito longe a minha mocidade”.
Mas, tal como a arte, a Humanidade é imortal, pela simples razão de que não haveria ser humano para registrar sua morte, como não houve o que registrasse seu nascimento. Assim, ela se renova (renasce) em sucessivos ciclos de civilização que ocorrem nas coordenadas do espaço-tempo, às vezes, histórico; outras vezes, cósmico. Os pensadores mais lúcidos das últimas cinco décadas coincidem em conjeturar para exatamente agora, nesta quadra, o advento de um novo ciclo, em coordenadas ao mesmo tempo históricas e cósmicas. Oswald de Andrade (A crise da filosofia messiânica); Álvaro Vieira Pinto (A sociologia dos países subdesenvolvidos); Fritjof Capra (O ponto de mutação) - por exemplo. Mas, no momento atual, não precisamos da genialidade desses grandes pensadores para saber que estavam certos. Gramsci definiria este nosso tempo como o de transição entre o fim de um ciclo de uma civilização que ainda não terminou de morrer e o nascimento de um novo ciclo daquela que ainda está em trabalho de parto.
Interrompi a redação deste artigo para acompanhar, ao vivo e boquiaberto, o desfile de comemoração dos 60 anos da Revolução Chinesa, em Pequim, através da TV chinesa em espanhol (CCTV). Indescritível manifestação do povo que nos liderará neste novo ciclo: a China renasceu em 1949 e agora exibe a vitória de sua revolução para o mundo com a mensagem da liberdade conquistada por uma Pátria que hoje se demonstra invencível. Monumentalidade em proporções chinesas: 50 mil militares e 150 mil civis desfilaram, impecáveis, em frente ao retrato de Mao-Tsé-Tung, numa sequência poética e humanista que homenageou o pensamento do líder e a sucessão de conquistas do seu povo durante a República Popular por ele fundada. Igualmente chineses foram o bom gosto e a liberdade criativa, mesclando tradição, folclore, erudição e arte popular com requintes de artesanato, tecnologia, ousadia e plasticidade para vestir e cenografar o maior espetáculo coreográfico-musical que já se realizou neste planeta. Uma banda militar de dois mil músicos, a que se somavam milhares de tambores e percussionistas e um coral de 10 mil vozes, além de um super painel gráfico de 50 mil pessoas, fizeram o musical e o texto para o desfile gigantesco de 200.000 soldados-bailarinos-do-povo e incontáveis carros alegóricos, numa profusão de alegria e felicidade coletiva. O espetáculo de inauguração das Olimpíadas foi uma produção de pequeno porte em comparação à desse desfile.
Voltando à reflexão original que deu margem a este escrito, quero dizer que a Gazeta, desde o começo, e com seus modestíssimos recursos, se propõe a ser parte da Humanidade que renasce, em particular, no que diz respeito ao renascimento do jornalismo nacional, ao qual pretende aportar o seu grão de areia.
Terá o jornalismo nacional falecido? A resposta é sim, há algumas décadas; “e agora são os seus cadáveres que por aí perambulam”. O artigo de Michael Niman, publicado em português no site Resistir serve como atestado de óbito, e não somente para o jornalismo nacional. Recomendo-o: http://resistir.info/varios/morte_diarios.html.
As reflexões do gazeteiro continuam na próxima Gazeta.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Gazeta em forma de e-meio 100
A Gazeta 100
Do ponto de vista técnico, a Gazeta é (era) o veículo de comunicação mais eficiente que conheci. Com um só clique em “Enviar”, o seu conteúdo chega (chegava) a cerca de mil computadores de possíveis leitores (no início, uns trezentos). Se, desses, trinta ou quarenta a lessem de fato, já significa(va) um rendimento comunicacional fabuloso para um simples clique, não é mesmo? Nenhum gazetista do século XVII ou XVIII poderia imaginar isso (este que vos escreve ainda se considera um simples gazeteiro; um dia, se puder, ainda se alçará à elevada condição de gazetista).
O tempo pretérito acima colocado entre parênteses significa exatamente isto: tal realidade já era, leitor. Desde a edição de nº 96, a Gazeta passou a sofrer os ataques de uma espécie de polícia que agora atua no ciberespaço com a desculpa de cercear os spams (creio que todos sabem o que é spam). São bloqueios pesados, devolvem não só a Gazeta como os e-mails posteriores às tentativas de envio da Gazeta, e também os e-mails que são enviados ao “suspeito gerador de spams”, estes sem qualquer aviso de retorno aos remetentes, cortando assim toda a possibilidade e o direito do “suspeito” de se corresponder e de informar e ser informado por essa via. O castigo dura uns três ou quatro dias, depois do que liberam o “suspeito”. As mensagens que lhe retornam partem de sites esquisitos, sem definição clara de quem são os responsáveis; ninguém assina embaixo. Nomes como spamcop e spamhaus (este com uma “sutil” estrela de seis pontas no fundo da página), além de umas derivações de googles e microsofts, assumem o cerco contra o “suspeito”: passam-lhe uma descompostura em inglês e exigem que ele se cadastre e cumpra certos “procedimentos” para que retirem o seu e-mail de suas “listas negras”. Procedimentos estes que o gazeteiro, claro, se recusou a executar.
A empresa que nos provê de servidor web informa-nos que agora e-mails com mais de cem destinatários são bloqueados por ela mesma, e isto num acordo com os demais prestadores de serviços como os dela, na tentativa de evitar a intervenção indiscriminada dos robocops virtuais.
Avisado desse expediente, o gazeteiro enviou as Gazetas 97, 98 e 99 através de uma extenuante operação de partição de sua lista de endereços em 10 diferentes listas para expedir cada uma daquelas Gazetas em 10 repetidos envios com conteúdos rigorosamente idênticos e com as respectivas partições da lista geral. Um trabalho torturante para o pobre gazeteiro que nunca foi afeito a tarefas repetitivas de nenhuma espécie. O que antes fazia com um só clique passou a ser, pelo menos para este que vos escreve, um verdadeiro martírio. Copiar e colar 10 vezes o texto original, selecionar cada uma das 10 sub-listas e colar os respectivos endereços nos locais certos, conferir tudo, ver se nada saiu errado, se não está enviando a mesma lista duas vezes, etc, etc e etc.
E o pior: não adiantou nada! Os robocops atacaram do mesmo jeito. As Gazetas passaram aos destinatários (quase todos), mas o e-mail do gazeteiro, ao que parece pilhado na tentativa de passar pela blitz em três dias seguidos de emissões, se viu novamente bloqueado, e desta vez o bloqueio atingiu o próprio IP da máquina de trabalho do gazeteiro.
O grave disso tudo é que este gazeteiro trabalha com o mesmíssimo e único endereço eletrônico há mais de doze anos e o utiliza para tudo, inclusive no seu ganha-pão.
Tem uma preguiça enorme para administrar tarefas de computador e por isso não deu ouvidos aos inúmeros conselhos que recebera para criar um e-mail só para a Gazeta e os assuntos políticos e ideológicos, deixando neutro e fora do risco de perseguição o endereço de trabalho. Verdade é que, de outra feita, tentou o expediente, mas acabou abandonando-o exatamente pela dificuldade que lhe parece ser congênita: a de exercer tarefas repetitivas e aborrecidas para simplesmente se organizar.
Porém, agora vai ter de encarar essa realidade.
A Gazeta em forma de e-meio tem novo e-mail: mario@cafenovomundo.com.br.
E esta Gazeta nº 100 o inaugura.
Bloqueados ou não, com muito mais trabalho, enfrentando o cerco dos robocops e as encheções de saco que prometem incrementar-se no ciberespaço a fim de cercear as facilidades e as liberdades que nele se geraram à revelia dos que se julgavam seus dominadores, vamos em frente (que atrás vem gente).
Do ponto de vista técnico, a Gazeta é (era) o veículo de comunicação mais eficiente que conheci. Com um só clique em “Enviar”, o seu conteúdo chega (chegava) a cerca de mil computadores de possíveis leitores (no início, uns trezentos). Se, desses, trinta ou quarenta a lessem de fato, já significa(va) um rendimento comunicacional fabuloso para um simples clique, não é mesmo? Nenhum gazetista do século XVII ou XVIII poderia imaginar isso (este que vos escreve ainda se considera um simples gazeteiro; um dia, se puder, ainda se alçará à elevada condição de gazetista).
O tempo pretérito acima colocado entre parênteses significa exatamente isto: tal realidade já era, leitor. Desde a edição de nº 96, a Gazeta passou a sofrer os ataques de uma espécie de polícia que agora atua no ciberespaço com a desculpa de cercear os spams (creio que todos sabem o que é spam). São bloqueios pesados, devolvem não só a Gazeta como os e-mails posteriores às tentativas de envio da Gazeta, e também os e-mails que são enviados ao “suspeito gerador de spams”, estes sem qualquer aviso de retorno aos remetentes, cortando assim toda a possibilidade e o direito do “suspeito” de se corresponder e de informar e ser informado por essa via. O castigo dura uns três ou quatro dias, depois do que liberam o “suspeito”. As mensagens que lhe retornam partem de sites esquisitos, sem definição clara de quem são os responsáveis; ninguém assina embaixo. Nomes como spamcop e spamhaus (este com uma “sutil” estrela de seis pontas no fundo da página), além de umas derivações de googles e microsofts, assumem o cerco contra o “suspeito”: passam-lhe uma descompostura em inglês e exigem que ele se cadastre e cumpra certos “procedimentos” para que retirem o seu e-mail de suas “listas negras”. Procedimentos estes que o gazeteiro, claro, se recusou a executar.
A empresa que nos provê de servidor web informa-nos que agora e-mails com mais de cem destinatários são bloqueados por ela mesma, e isto num acordo com os demais prestadores de serviços como os dela, na tentativa de evitar a intervenção indiscriminada dos robocops virtuais.
Avisado desse expediente, o gazeteiro enviou as Gazetas 97, 98 e 99 através de uma extenuante operação de partição de sua lista de endereços em 10 diferentes listas para expedir cada uma daquelas Gazetas em 10 repetidos envios com conteúdos rigorosamente idênticos e com as respectivas partições da lista geral. Um trabalho torturante para o pobre gazeteiro que nunca foi afeito a tarefas repetitivas de nenhuma espécie. O que antes fazia com um só clique passou a ser, pelo menos para este que vos escreve, um verdadeiro martírio. Copiar e colar 10 vezes o texto original, selecionar cada uma das 10 sub-listas e colar os respectivos endereços nos locais certos, conferir tudo, ver se nada saiu errado, se não está enviando a mesma lista duas vezes, etc, etc e etc.
E o pior: não adiantou nada! Os robocops atacaram do mesmo jeito. As Gazetas passaram aos destinatários (quase todos), mas o e-mail do gazeteiro, ao que parece pilhado na tentativa de passar pela blitz em três dias seguidos de emissões, se viu novamente bloqueado, e desta vez o bloqueio atingiu o próprio IP da máquina de trabalho do gazeteiro.
O grave disso tudo é que este gazeteiro trabalha com o mesmíssimo e único endereço eletrônico há mais de doze anos e o utiliza para tudo, inclusive no seu ganha-pão.
Tem uma preguiça enorme para administrar tarefas de computador e por isso não deu ouvidos aos inúmeros conselhos que recebera para criar um e-mail só para a Gazeta e os assuntos políticos e ideológicos, deixando neutro e fora do risco de perseguição o endereço de trabalho. Verdade é que, de outra feita, tentou o expediente, mas acabou abandonando-o exatamente pela dificuldade que lhe parece ser congênita: a de exercer tarefas repetitivas e aborrecidas para simplesmente se organizar.
Porém, agora vai ter de encarar essa realidade.
A Gazeta em forma de e-meio tem novo e-mail: mario@cafenovomundo.com.br.
E esta Gazeta nº 100 o inaugura.
Bloqueados ou não, com muito mais trabalho, enfrentando o cerco dos robocops e as encheções de saco que prometem incrementar-se no ciberespaço a fim de cercear as facilidades e as liberdades que nele se geraram à revelia dos que se julgavam seus dominadores, vamos em frente (que atrás vem gente).
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Gazeta em forma de e-meio 99
O Socialismo de Invenção (parte 3)
Uma anedota do folclore político da Venezuela conta que o Panteão dos Libertadores, mausoléu construído em Caracas, em 1876, para sepulcro e homenagem permanente a Bolívar e seus companheiros de luta antiimperialista, foi feito para que a oligarquia venezuelana o visitasse uma vez por ano, sempre na data de aniversário do falecimento de Bolívar, para conferir e ter certeza de que ele de fato está morto.
Liberdade, independência e união dos povos, palavras-chave de todo ideário socialista, incluindo o de Bolívar, só causam temor aos impérios - que querem subjugar, colonizar e fragmentar as nações que exploram -, quando são para valer, isto é, se se concretizam em realidades revolucionárias e capazes de ameaçar o statu quo capitalista.
Entre as ideologias socialistas das mais diversas tendências que brotaram durante o século 19 em contraposição aos avanços capitalistas e imperialistas, desde as que propunham práticas comunistas ou anarquistas, ou as que se manifestaram apenas teórica ou filosoficamente, a mais temida e a que de fato ameaçou e ameaça o statu quo capitalista, em nível mundial, é a de Bolívar. Daí a ocultação de sua obra, de suas idéias, de sua história, de sua saga, de sua épica que, em conjunto ou separadamente, quando não superam, se igualam em grandeza geográfica e magnitude histórica aos grandes acontecimentos que se deram durante aquele século em qualquer parte do mundo.
O século 20 olvidou completamente Bolívar na vigência do socialismo científico, que se estabeleceu como sistema de poder para quase metade da população do mundo, e que acabou por fortalecer a hegemonia capitalista e a unipolaridade do poder mundial, coisa que nunca havia ocorrido em tal intensidade. A própria revolução cubana se salvou pelo retorno de Bolívar na Venezuela, com a eleição de Hugo Chávez, e pela capacidade dialética e de autocrítica que demonstraram seus líderes durante o chamado “período especial” (entre a queda da URSS, em 1989, e a posse de Chávez, em 1999).
Para se entender o que ocorre hoje na Venezuela após dez anos de bolivarianismo, fenômeno que já se alastra por toda a América Latina, incluindo o Brasil (mesmo que não nos demos conta disso), é fundamental conhecer a obra de Bolívar. O sucesso indiscutível do processo revolucionário que está causando admiração em todo o planeta, a partir daquele país, antes um obscuro posto-de-gasolina exclusivo dos EUA, se deve à aplicação sistemática, inventiva e atualizadora da ideologia bolivariana, da qual Hugo Chávez é agora o principal teórico, professor e líder.
Uma notável mudança geopolítica está se verificando na América. Graças à internacionalização das duas maiores conquistas da revolução cubana - educação e saúde pública -, Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua rapidamente se tornaram territórios livres do analfabetismo e suas populações estão tendo acesso, em massa, ao conhecimento e a uma qualidade de vida nunca antes experimentada. Os índices de pobreza e miséria despencam nesses países e a participação popular nas decisões do poder real aumenta significativamente, e com um nível espantoso de consciência política e de cidadania. Em contrapartida, Cuba recebe de todos esses países a força da união concretizada na ALBA, Aliança Bolivariana para as Américas, à qual outros países do Caribe e América Central se juntaram, entre eles, Honduras, cuja oligarquia em desespero promoveu uma quartelada que está colocando o Império numa saia justa difícil de resolver-se. O contágio bolivariano já alcança o Paraguai e a Argentina, e afeta Brasil, Chile e Uruguai, estes últimos ainda num meio-de-campo “moderado”, blasé, mas não podem ficar fora de um processo com tamanha grandeza e repercussão no continente. Apenas Peru e Colômbia, cujos governos se dissociaram de tal forma de seus povos, e parecem implorar a condição de protetorados do Império, fingem que não vêem a avassaladora maré bolivariana.
E o que é mais novo em tudo isso, até para o pensamento bolivariano, é que se trata, pela primeira vez na história, de uma revolução pacífica e vitoriosa.
Estudemo-la para apoiá-la, pois. E nela participarmos.
Uma anedota do folclore político da Venezuela conta que o Panteão dos Libertadores, mausoléu construído em Caracas, em 1876, para sepulcro e homenagem permanente a Bolívar e seus companheiros de luta antiimperialista, foi feito para que a oligarquia venezuelana o visitasse uma vez por ano, sempre na data de aniversário do falecimento de Bolívar, para conferir e ter certeza de que ele de fato está morto.
Liberdade, independência e união dos povos, palavras-chave de todo ideário socialista, incluindo o de Bolívar, só causam temor aos impérios - que querem subjugar, colonizar e fragmentar as nações que exploram -, quando são para valer, isto é, se se concretizam em realidades revolucionárias e capazes de ameaçar o statu quo capitalista.
Entre as ideologias socialistas das mais diversas tendências que brotaram durante o século 19 em contraposição aos avanços capitalistas e imperialistas, desde as que propunham práticas comunistas ou anarquistas, ou as que se manifestaram apenas teórica ou filosoficamente, a mais temida e a que de fato ameaçou e ameaça o statu quo capitalista, em nível mundial, é a de Bolívar. Daí a ocultação de sua obra, de suas idéias, de sua história, de sua saga, de sua épica que, em conjunto ou separadamente, quando não superam, se igualam em grandeza geográfica e magnitude histórica aos grandes acontecimentos que se deram durante aquele século em qualquer parte do mundo.
O século 20 olvidou completamente Bolívar na vigência do socialismo científico, que se estabeleceu como sistema de poder para quase metade da população do mundo, e que acabou por fortalecer a hegemonia capitalista e a unipolaridade do poder mundial, coisa que nunca havia ocorrido em tal intensidade. A própria revolução cubana se salvou pelo retorno de Bolívar na Venezuela, com a eleição de Hugo Chávez, e pela capacidade dialética e de autocrítica que demonstraram seus líderes durante o chamado “período especial” (entre a queda da URSS, em 1989, e a posse de Chávez, em 1999).
Para se entender o que ocorre hoje na Venezuela após dez anos de bolivarianismo, fenômeno que já se alastra por toda a América Latina, incluindo o Brasil (mesmo que não nos demos conta disso), é fundamental conhecer a obra de Bolívar. O sucesso indiscutível do processo revolucionário que está causando admiração em todo o planeta, a partir daquele país, antes um obscuro posto-de-gasolina exclusivo dos EUA, se deve à aplicação sistemática, inventiva e atualizadora da ideologia bolivariana, da qual Hugo Chávez é agora o principal teórico, professor e líder.
Uma notável mudança geopolítica está se verificando na América. Graças à internacionalização das duas maiores conquistas da revolução cubana - educação e saúde pública -, Venezuela, Bolívia, Equador e Nicarágua rapidamente se tornaram territórios livres do analfabetismo e suas populações estão tendo acesso, em massa, ao conhecimento e a uma qualidade de vida nunca antes experimentada. Os índices de pobreza e miséria despencam nesses países e a participação popular nas decisões do poder real aumenta significativamente, e com um nível espantoso de consciência política e de cidadania. Em contrapartida, Cuba recebe de todos esses países a força da união concretizada na ALBA, Aliança Bolivariana para as Américas, à qual outros países do Caribe e América Central se juntaram, entre eles, Honduras, cuja oligarquia em desespero promoveu uma quartelada que está colocando o Império numa saia justa difícil de resolver-se. O contágio bolivariano já alcança o Paraguai e a Argentina, e afeta Brasil, Chile e Uruguai, estes últimos ainda num meio-de-campo “moderado”, blasé, mas não podem ficar fora de um processo com tamanha grandeza e repercussão no continente. Apenas Peru e Colômbia, cujos governos se dissociaram de tal forma de seus povos, e parecem implorar a condição de protetorados do Império, fingem que não vêem a avassaladora maré bolivariana.
E o que é mais novo em tudo isso, até para o pensamento bolivariano, é que se trata, pela primeira vez na história, de uma revolução pacífica e vitoriosa.
Estudemo-la para apoiá-la, pois. E nela participarmos.
quarta-feira, 9 de setembro de 2009
Gazeta em forma de e-meio 98
O Socialismo de Invenção (parte 2)
Simon Bolívar não se propunha um teórico e nem escreveu uma teoria estruturada metodologicamente. Suas idéias foram produzidas na dialética do conhecimento, na observação inteligente da realidade sul-americana e nas experiências políticas e militares em que se envolveu de corpo e alma, a partir de uma intuição muito aguda e da vasta cultura que adquiriu ao longo da sua vida. Produziu, assim, uma obra extensa que se espalha em mais de dez mil documentos escritos, de toda espécie: cartas, jornalismo, manifestos, mensagens, discursos, doutrinas militares e políticas, legislações, decretos, projetos constitucionais, etc. Em todos, até em cartas de amor, jamais deixou de incluir pensamentos inovadores e originais que, coligidos, formam o corpus de um pensamento de enorme importância universal, sob os aspectos político, econômico, social, humanista e, antes de tudo, socialista, revolucionário, libertário, e de tal maneira visionário que só agora, no século 21, no bicentenário de sua autoria, é que começa a ser de fato entendido e aproveitado em favor da realidade americana e mundial.
É bastante a leitura de alguns de seus textos mais célebres para perceber que Bolívar é o precursor do que aqui chamamos Socialismo de Invenção, que já demonstra superar o socialismo científico, e promete ser o que logrará, enfim, alicerçar a revolução socialista de que a Humanidade necessita para se safar da autodestruição capitalista e conquistar a harmonia existencial com o planeta Terra, e, portanto, a própria sobrevivência nele pelo tempo em que o destino cósmico do nosso sistema solar o permitir.
“Uma importante espécie biológica está em risco de desaparecer pela rápida e progressiva liquidação de suas condições de vida: o homem” – advertia Fidel Castro num pronunciamento na ONU, em 1992.
Bolívar começou cedo, aos doze anos de idade, como discípulo de Simon Rodriguez, sábio historiador e professor que, como pensador, pode ser classificado entre os socialistas utópicos, ainda que desiludido: “Quis fazer da terra um paraíso para todos, e a fiz um inferno para mim”, sentenciou ao fim de sua longa vida. Neste “paraíso para todos” estava a sua ilha de utopia. Ainda assim, Simon Rodriguez e sua obra foram de fundamental importância para o processo libertário latino-americano em particular quando demonstrou, com pioneirismo, a necessidade de sermos originais em nossa América: “Veja a Europa, como inventa; veja a América, como imita. Por que só não imitamos o que da Europa se deve imitar: a originalidade”. Ou inventamos ou erramos, era o seu lema, que também foi o título de uma de suas obras mais decisivas e mais influentes na formação de seu discípulo Bolívar.
A partir das lições do mestre, Bolívar estruturou seu pensamento e ação revolucionária para o propósito da “criação de uma sociedade inteira” na América; porém, o fez sem aquele idealismo utópico que iludira o mestre, mas, sim, com uma leitura crítica da Humanidade, cujo ceticismo - de quem não aceita de forma alguma mentir, nem para si mesmo -, o aproxima das análises críticas de Maquiavel e de Tucídides:
“A natureza, para falar a verdade, nos dota, ao nascer, do incentivo da liberdade; mas seja por negligência, seja por uma propensão inerente à humanidade, a verdade é que ela repousa tranquila, ainda que presa às amarras que lhe são impostas. Ao contemplá-la neste estado de prostituição, parece que temos motivos para nos persuadirmos de que a maioria dos homens tem por verdadeira aquela humilhante máxima, que mais custa manter o equilíbrio da liberdade do que suportar o peso da tirania. Oxalá esta máxima contrária à moral da natureza fosse falsa! Oxalá esta máxima não estivesse sancionada pela indolência dos homens em relação aos seus direitos mais sagrados!”
Se não caiu na ilusão utópica que estimulou os anseios de felicidade e igualdade social e, portanto, o pensamento socialista que o antecedeu, tampouco Bolívar embarcou no cientificismo que começava a entrar em moda entre os pensadores de sua época, e que acabou predominando até há poucos anos, quando ruiu junto com o muro de Berlim: “difícil apreciar onde termina a arte e principia a ciência”, pensava. Não encampou a idéia, que começava a vicejar, redutora dos processos libertários a fatores meramente econômicos, ainda que não desprezasse tais fatores, nem cogitou que para conquistar a vitória revolucionária era bastante a apropriação dos meios de produção pela luta armada contra a burguesia capitalista. Seu pensamento ia muito mais longe; para ele, a liberdade haveria de ser, antes de tudo, uma conquista do saber, ou seja, uma conquista cultural e moral:
“Dominaram-nos pelo engano mais que pela força; e pelo vício degradaram-nos mais que pela superstição. A escravidão é filha das trevas; um povo ignorante é um instrumento cego de sua própria destruição; a ambição, a intriga, abusa da credulidade e da inexperiência dos homens alheios de todo conhecimento político, econômico ou civil: adotam como realidades as que são puras ilusões, tomam a licenciosidade pela liberdade, a traição pelo patriotismo, a vingança pela justiça”.
Com argumentos demolidores contra a escravidão e a ignorância dos povos, fatores que, desde a antiguidade até a sua época ainda eram aceitos como “fatores naturais”, uma vez que “os homens nascem diferentes”, Bolívar começou pela libertação dos escravos e focou no acesso das massas populares à educação, ao conhecimento e à cultura a sua estratégia revolucionária. Em pouco tempo, suas idéias, e a prática libertária que delas se seguiam, desesperavam os impérios europeus que haviam “descoberto”, na América Latina, a mais suculenta fonte de saqueio de todos os tempos: o espanhol, contra o qual lutou diretamente e que expulsou em definitivo; o inglês, que, através dos Estados Unidos, retrucou com a Doutrina Monroe; e é bem provável que o “aventureiro” a que D. João VI se referira a Pedro I em seu célebre conselho de pai para filho, teria sido Bolívar, que, na época, já descia pelo cone sul criando e libertando nações, temido pelas elites e oligarquias coloniais como se fosse um novo Napoleão, figura histórica que já escaldara o assustadiço império português.
Bolívar tratava de inventar a Gran Pátria, americana por excelência, com personalidade própria e diferente dos modelos de República então conhecidos. Pensava e punha em prática idéias inovadoras e proto-socialistas através de inflamada oratória e de artigos jornalísticos, a que acompanhavam manifestos, legislações e projetos constitucionais que se balizavam por um estado laico e respeitoso das liberdades religiosas, de plena e efetiva igualdade democrática e racial, sem escravidão, sem despotismos, sem corrupção, estruturado em um forte e prioritário investimento público em educação de qualidade para todos, independente de berço, credo, raça ou classe social.
“Ser culto para ser livre”, sintetizou assim a ideologia de Bolívar um dos mais célebres bolivarianos históricos, aquele que se tornaria o gênio libertador de Cuba: o poeta, escritor, pensador e guerrilheiro José Martí. Bolívar lutava pelo direito de cada nação, cada povo, construir a sua própria pátria socialista, criando e inventando, com base em suas culturas e costumes, o verdadeiro Estado nacional, que nunca seria o ideal, mas o real, o mais próximo da verdade endógena que se gesta numa nacionalidade. “Cada povo, cada nação, tem o direito de inventar e construir a sua própria pátria; e, se o fizer, esta pátria será uma pátria socialista e democrática” – costuma dizer Hugo Chávez, citando Bolívar.
Ou inventamos ou erramos.
A obra de Bolívar não cabe avaliar nem analisar em profundidade em nosso minúsculo espaço de comunicação, que, nestes artigos, se propõe apenas a divulgá-la. Mesmo assim, chamamos para uma terceira e última parte, a seguir, na próxima Gazeta, onde comentamos algumas de suas conseqüências históricas e atuais.
Simon Bolívar não se propunha um teórico e nem escreveu uma teoria estruturada metodologicamente. Suas idéias foram produzidas na dialética do conhecimento, na observação inteligente da realidade sul-americana e nas experiências políticas e militares em que se envolveu de corpo e alma, a partir de uma intuição muito aguda e da vasta cultura que adquiriu ao longo da sua vida. Produziu, assim, uma obra extensa que se espalha em mais de dez mil documentos escritos, de toda espécie: cartas, jornalismo, manifestos, mensagens, discursos, doutrinas militares e políticas, legislações, decretos, projetos constitucionais, etc. Em todos, até em cartas de amor, jamais deixou de incluir pensamentos inovadores e originais que, coligidos, formam o corpus de um pensamento de enorme importância universal, sob os aspectos político, econômico, social, humanista e, antes de tudo, socialista, revolucionário, libertário, e de tal maneira visionário que só agora, no século 21, no bicentenário de sua autoria, é que começa a ser de fato entendido e aproveitado em favor da realidade americana e mundial.
É bastante a leitura de alguns de seus textos mais célebres para perceber que Bolívar é o precursor do que aqui chamamos Socialismo de Invenção, que já demonstra superar o socialismo científico, e promete ser o que logrará, enfim, alicerçar a revolução socialista de que a Humanidade necessita para se safar da autodestruição capitalista e conquistar a harmonia existencial com o planeta Terra, e, portanto, a própria sobrevivência nele pelo tempo em que o destino cósmico do nosso sistema solar o permitir.
“Uma importante espécie biológica está em risco de desaparecer pela rápida e progressiva liquidação de suas condições de vida: o homem” – advertia Fidel Castro num pronunciamento na ONU, em 1992.
Bolívar começou cedo, aos doze anos de idade, como discípulo de Simon Rodriguez, sábio historiador e professor que, como pensador, pode ser classificado entre os socialistas utópicos, ainda que desiludido: “Quis fazer da terra um paraíso para todos, e a fiz um inferno para mim”, sentenciou ao fim de sua longa vida. Neste “paraíso para todos” estava a sua ilha de utopia. Ainda assim, Simon Rodriguez e sua obra foram de fundamental importância para o processo libertário latino-americano em particular quando demonstrou, com pioneirismo, a necessidade de sermos originais em nossa América: “Veja a Europa, como inventa; veja a América, como imita. Por que só não imitamos o que da Europa se deve imitar: a originalidade”. Ou inventamos ou erramos, era o seu lema, que também foi o título de uma de suas obras mais decisivas e mais influentes na formação de seu discípulo Bolívar.
A partir das lições do mestre, Bolívar estruturou seu pensamento e ação revolucionária para o propósito da “criação de uma sociedade inteira” na América; porém, o fez sem aquele idealismo utópico que iludira o mestre, mas, sim, com uma leitura crítica da Humanidade, cujo ceticismo - de quem não aceita de forma alguma mentir, nem para si mesmo -, o aproxima das análises críticas de Maquiavel e de Tucídides:
“A natureza, para falar a verdade, nos dota, ao nascer, do incentivo da liberdade; mas seja por negligência, seja por uma propensão inerente à humanidade, a verdade é que ela repousa tranquila, ainda que presa às amarras que lhe são impostas. Ao contemplá-la neste estado de prostituição, parece que temos motivos para nos persuadirmos de que a maioria dos homens tem por verdadeira aquela humilhante máxima, que mais custa manter o equilíbrio da liberdade do que suportar o peso da tirania. Oxalá esta máxima contrária à moral da natureza fosse falsa! Oxalá esta máxima não estivesse sancionada pela indolência dos homens em relação aos seus direitos mais sagrados!”
Se não caiu na ilusão utópica que estimulou os anseios de felicidade e igualdade social e, portanto, o pensamento socialista que o antecedeu, tampouco Bolívar embarcou no cientificismo que começava a entrar em moda entre os pensadores de sua época, e que acabou predominando até há poucos anos, quando ruiu junto com o muro de Berlim: “difícil apreciar onde termina a arte e principia a ciência”, pensava. Não encampou a idéia, que começava a vicejar, redutora dos processos libertários a fatores meramente econômicos, ainda que não desprezasse tais fatores, nem cogitou que para conquistar a vitória revolucionária era bastante a apropriação dos meios de produção pela luta armada contra a burguesia capitalista. Seu pensamento ia muito mais longe; para ele, a liberdade haveria de ser, antes de tudo, uma conquista do saber, ou seja, uma conquista cultural e moral:
“Dominaram-nos pelo engano mais que pela força; e pelo vício degradaram-nos mais que pela superstição. A escravidão é filha das trevas; um povo ignorante é um instrumento cego de sua própria destruição; a ambição, a intriga, abusa da credulidade e da inexperiência dos homens alheios de todo conhecimento político, econômico ou civil: adotam como realidades as que são puras ilusões, tomam a licenciosidade pela liberdade, a traição pelo patriotismo, a vingança pela justiça”.
Com argumentos demolidores contra a escravidão e a ignorância dos povos, fatores que, desde a antiguidade até a sua época ainda eram aceitos como “fatores naturais”, uma vez que “os homens nascem diferentes”, Bolívar começou pela libertação dos escravos e focou no acesso das massas populares à educação, ao conhecimento e à cultura a sua estratégia revolucionária. Em pouco tempo, suas idéias, e a prática libertária que delas se seguiam, desesperavam os impérios europeus que haviam “descoberto”, na América Latina, a mais suculenta fonte de saqueio de todos os tempos: o espanhol, contra o qual lutou diretamente e que expulsou em definitivo; o inglês, que, através dos Estados Unidos, retrucou com a Doutrina Monroe; e é bem provável que o “aventureiro” a que D. João VI se referira a Pedro I em seu célebre conselho de pai para filho, teria sido Bolívar, que, na época, já descia pelo cone sul criando e libertando nações, temido pelas elites e oligarquias coloniais como se fosse um novo Napoleão, figura histórica que já escaldara o assustadiço império português.
Bolívar tratava de inventar a Gran Pátria, americana por excelência, com personalidade própria e diferente dos modelos de República então conhecidos. Pensava e punha em prática idéias inovadoras e proto-socialistas através de inflamada oratória e de artigos jornalísticos, a que acompanhavam manifestos, legislações e projetos constitucionais que se balizavam por um estado laico e respeitoso das liberdades religiosas, de plena e efetiva igualdade democrática e racial, sem escravidão, sem despotismos, sem corrupção, estruturado em um forte e prioritário investimento público em educação de qualidade para todos, independente de berço, credo, raça ou classe social.
“Ser culto para ser livre”, sintetizou assim a ideologia de Bolívar um dos mais célebres bolivarianos históricos, aquele que se tornaria o gênio libertador de Cuba: o poeta, escritor, pensador e guerrilheiro José Martí. Bolívar lutava pelo direito de cada nação, cada povo, construir a sua própria pátria socialista, criando e inventando, com base em suas culturas e costumes, o verdadeiro Estado nacional, que nunca seria o ideal, mas o real, o mais próximo da verdade endógena que se gesta numa nacionalidade. “Cada povo, cada nação, tem o direito de inventar e construir a sua própria pátria; e, se o fizer, esta pátria será uma pátria socialista e democrática” – costuma dizer Hugo Chávez, citando Bolívar.
Ou inventamos ou erramos.
A obra de Bolívar não cabe avaliar nem analisar em profundidade em nosso minúsculo espaço de comunicação, que, nestes artigos, se propõe apenas a divulgá-la. Mesmo assim, chamamos para uma terceira e última parte, a seguir, na próxima Gazeta, onde comentamos algumas de suas conseqüências históricas e atuais.
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