domingo, 5 de dezembro de 2010

Gazeta em forma de e-meio 115

Uma notícia triste

O falecimento de minha mãe

Maria Elisa Pitanga Maia Drummond
(18 de março de 1922 - 23 de novembro de 2010)


Segue-se o discurso que pronunciei na Missa de Sétimo Dia:

O triunfo de Maria Elisa

Queridos amigos,

Escolhi abordar a memória de minha mãe - Maria Elisa Pitanga Maia Drummond - não pelo ponto de vista do filho ou das relações internas da família que ela maternalmente presidiu, mas pelo aspecto singular do que foi mamãe como pessoa, como ser social, como amiga que era de todos nós, porque é o lado dela que nos une e nos irmana neste momento e, por isso, creio ser o mais apropriado.

Sim, mamãe não era só a mãe de seus filhos; ela era também nossa amiga - e que amiga! -, a mesma que todos vocês conheceram tão bem quanto nós, seus filhos.

Eis aí uma particularidade entre as que considero mais encantadoras na vida dela. Não era necessário um relacionamento íntimo ou frequente com ela para conhecê-la bem. Mesmo os que tiveram poucas ou esporádicas oportunidades de contato pessoal a conheciam tão bem como nós, que com ela convivíamos intimamente.

É que seu espírito se mostrava inteiro a qualquer pessoa com quem se relacionava, desde o primeiro contato. Era um espírito de transparência cristalina, sem disfarces, sem segredos, sem opacidades, sem nuances, sem ardis, sem temores e sem couraças - um verdadeiro diamante que ela permanentemente lapidava para torná-lo cada dia mais puro.

E que não se diga que era ela ingênua. Pelo contrário, era versada em dois importantes idiomas, o francês e o inglês, além do nosso idioma pátrio, que dominava muito bem. E nos três desfrutou de boa leitura, conversação e escrita; pode-se dizer que tinha uma ilustração bem acima da média. Porém, disso jamais tirou vantagem ou afetação de superioridade; nem se valeu desses atributos em proveito próprio. Comunicativa e desinibida como era, ela usava-os com naturalidade para aproximar pessoas de distintas nacionalidades e culturas. No mais, ela os mantinha em si mesma, nos planos mais elevados do deleite intelectual e da satisfação espiritual.

Mamãe teve por paradigma a bondade - a bondade no sentido cristão, católico, apostólico, com base nos ensinamentos simples e sábios de Cristo, de amor ao próximo, de misericórdia e de humildade, em que ela elegeu como ícone de devoção a bem aventurança de Santa Terezinha -, e, por virtude, cultivou a pureza. Jamais permitiu que seu espírito se deixasse contaminar por ambições e perversões mundanas. Sua atitude era sempre a de dar sem pedir nada em troca. Nunca cobrou nem pediu nada para si mesma, nem mesmo um mero reconhecimento. Para o bem alheio, sim, pedia, até de joelhos se preciso fosse. Ela conjugava o verbo dar na acepção franciscana, despojando-o da insignificância material e efêmera para enaltecê-lo de relevância espiritual e divina.

Assim, suas alegrias eram causadas não por seus próprios sucessos, os quais nunca almejou nem perseguiu, mas pelos sucessos daqueles que ela amava. Como disse bem o meu irmão Marco Antônio, "ela comemorava até gol da Argentina". Sabia como fazer suas as vitórias dos seus, fossem os mais próximos ou os mais distantes. Às vezes, as desfrutava mais e melhor que os próprios bem sucedidos. E como era amplo e populoso o seu continente amoroso! Era do tamanho do seu coração: nele não havia lugar para intolerâncias nem preconceitos; todos eram bem-vindos e bem recebidos. Desta forma, simples e direta, fez com que a sua vida se passasse quase toda num mar de alegrias e numa sequência de festas.

Uma vida que pode ser representada por uma linha reta traçada entre dois pontos: o de seu nascimento e o de sua morte. Nela se destacam dois segmentos: o primeiro, como filha gentil e amorosa de seus pais, Achilles e Elizeta, até o seu casamento com papai (depois de 11 anos de namoro e noivado) e o segundo, como esposa e mãe, em regime de dedicação exclusiva - únicos títulos que ela se honrava em possuir (e ainda conquistaria os de avó e bisavó) -, do feliz casamento que durou mais de 61 anos. Mas foi sempre a mesma pessoa do início ao fim e fez com que a retidão de sua vida ocorresse toda cercada de luz, de paz e de alegre harmonia.

Uma biografia sui generis, sem registros de inimizades, desafeições e outros tumultos existenciais ou de relacionamento, inclusive sem as máculas dos chamados pecados capitais, os quais, ao que parece, era capaz de anulá-los até no seu entorno; mesmo a inveja, o mais incidente contra pessoas como ela, logrou não despertar entre aqueles que a cercavam. Um rio único, límpido e calmo, que correu retilíneo, da fonte ao mar, por entre a floresta inóspita.

O fato de ela a ter vivido em trânsito por um mundo tão adverso - mundo este que, apesar de tudo, para ela fora o que abrigava os seres que ela soube amar, e por isto mesmo, sempre haveria de ser um mundo de esperanças - foi, para mim, e estou certo que para ela também, a sua grande vitória; um verdadeiro triunfo, talvez o mais significativo dos que se podem obter na vida terrena. Como isto foi possível a partir de pessoa tão frágil e tão desarmada como mamãe para esta vida tão dura, espinhosa e difícil como a em que vivemos?

Penso que temos parte nele. Mamãe se sabia muito bem protegida pelos seus, pois neles depositava absoluta confiança. Além de papai, seu mais próximo guardião, na dedicação do esposo que não permitia que a ela nada faltasse e que daria a vida para salvá-la de qualquer ameaça, nós, igualmente, como um exército de guardiães voluntários, procurávamos quitar a dívida espiritual que assumíamos com ela por sua bondade e generosidade, protegendo-a sempre que pudéssemos e onde estivéssemos. Ai de quem levantasse um dedo que ameaçasse Dona Maria Elisa! E sempre havia um de nós por onde quer que ela passasse. Assim, ela atravessou incólume durante os seu 88 anos, oito meses e quatro dias de vida a selva selvagem em que se transformou a existência urbana deste nosso planeta, trilhando-a firme e em linha reta. E, por mais vulnerável fosse tal existência quase somente espiritual e sensível, nós a protegíamos como um valioso bem que, em parte, conquistáramos através da amizade. E nos era muito valioso mesmo!

É este triunfo que aqui, depois de sete dias da dor que nos causou a sua partida, devemos comemorar como sendo de todos nós, pois com ele Maria Elisa, Dona Maria Elisa, mamãe, ressurge em nós como nossa mãe celestial e nos faz todos irmãos, tal como ela queria, e por tal pleito dedicou a sua vida dadivosa. Um triunfo da fé, dirão os religiosos; um triunfo da virtude, dirão os humanistas. Talvez, antes de tudo, um triunfo do amor, pois, como Santa Terezinha, a vocação dela era o amor.

Para terminar, faço aqui uma revelação, possivelmente a única desta oração, toda composta com fragmentos da vida de mamãe, que tão bem conhecemos:

Agora, que ela ultrapassou o último portal da sua bela existência, eu a posso ver, no pleno gozo do seu-nosso triunfo, na melhor das imagens que, em minha opinião, a literatura universal teria nos legado para representá-lo.

É aquela que a imaginação de Dante construiu para exaltar a sua Beatriz triunfante, como um novo facho de luz que se acrescenta à luminosíssima cúpula celestial no mais perto de Deus e mais elevado patamar do Paraíso, presidido pela Virgem Maria. Eu posso ver mamãe lá, sendo recebida com as bençãos de Nossa Senhora e de Santa Terezinha, e, humildemente, tomando o seu merecido lugar naquele cenário deslumbrante. De lá ela nos abençoa e se sente imensamente grata a todos nós por tê-la ajudado a ter sua morada eterna no lugar onde sempre desejou. E com aquele sorriso sereno e contagiante e a simplicidade de sempre, que são duas de suas mais conhecidas virtudes, outra vez ela nos diz:

Muito obrigada!


Igreja de São João Evangelista, no bairro da Serra,
em Belo Horizonte, 29 de novembro de 2010.

domingo, 25 de julho de 2010

Gazeta em forma de e-meio 114

A Gazeta recomenda

Para quem tem banda larga e cerca de uma hora e quinze minutos nesta domingueira, a Gazeta recomenda o discurso que Hugo Chávez pronunciou em cadeia nacional, neste sábado, em comemoração do 227º aniversário de nascimento de Simón Bolívar.

Está no vídeo, ao pé da página, no seguinte endereço, (duração: 71 min.):

http://www.aporrea.org/tiburon/n162006.html (a recomendação é de que o vídeo seja visto antes da leitura do texto na mesma página)

Apesar de ser em espanhol, a boa dicção do orador permite-nos uma clara e quase total apreensão do discurso. Mas, como informação que pode ser útil à sua melhor compreensão, pois nada do que realmente se passa lá é permitido que se divulgue por acá, é bom que se saiba:

a) A Venezuela está, neste momento, sob forte pressão bélica imperialista. Utilizando a Colômbia como uma nova Israel na América Latina, os EUA manipulam aquele governo títere para fazer as provocações (como a mais recente, na OEA) enquanto ocupam sete bases militares fortemente armadas no território colombiano. Como se não bastasse, estacionaram agora 46 navios de guerra na Costa Rica, além de fortalecerem as bases militares que mantêm em Aruba e Curaçao e ordenarem o deslocamento da 4ª Frota para o mar do Caribe. Ou seja, nos próximos dias, a Venezuela estará literalmente cercada de forças militares estadunidenses, prontas para agir.

b) A inteligência venezuelana desmantelou, duas semanas atrás, um plano de assassinato de Hugo Chávez ao prender o terrorista salvadorenho Chávez Abarca, com larga ficha de atentados contra Cuba, Nicarágua, Guatemala, Honduras e outros países da América Central a serviço da CIA e sob o comando do famoso terrorista Posada Carrilles.

c) Há cerca de 10 dias, em ambiente festivo e patriótico, o governo da Venezuela promoveu a exumação dos restos mortais de Simón Bolívar, com a finalidade de realizar diversos estudos e análises científicas com base em modernas tecnologias e elucidar uma série de dúvidas sobre a história do Libertador, especialmente as que são relacionadas com as reais circunstâncias de sua morte prematura e não de todo esclarecidas. O evento teve forte impacto nacional, com os principais momentos divulgados em cadeia nacional e com a troca dos aparatos funerários, que eram todos de origem estrangeira (ingleza) e foram substituídos por peças manufaturadas pelos trabalhadores venezuelanos com materiais (ouro e madeiras) do próprio país, e destaque para a nova bandeira que passa agora a envolver o sarcófago. Feita com tecido nacional, a bandeira viajou por todos os Estados para que costureiras bordassem nela as oito estrelas, como a queria Bolívar (eram sete na que estava no ataúde), diante das câmeras de televisão. O discurso de Hugo Chávez, pronunciado no Panteão dos Libertadores, em Caracas, é o da solenidade de encerramento dessas festividades.

d) Dia 26 de setembro próximo haverá eleições para a Assembléia Nacional da Venezuela. Era plano do Império se valer dessas eleições para derrubar a maioria chavista e eleger políticos de oposição que manejassem um golpe de Estado a partir do Legislativo, como fizeram em Honduras. Para isso, acirraram os ataques midiáticos, os boicotes econômicos e a sabotagem interna a fim de que os políticos de oposição tivessem mais chances na eleição. Porém, já perceberam que, apesar de tudo, a popularidade de Chávez não parou de crescer e tudo indica que ele conquistará uma maioria avassaladora (mais de 2/3) na Assembléia Nacional para a próxima legislatura. A conclusão dos "estrategistas" do Império é a de que somente uma invasão armada ou uma guerra provocada pela Colômbia, apoiada pelos EUA, poderá derrubar o governo bolivariano da Venezuela e eliminar Hugo Chávez.

E Hugo Chávez está ciente e consciente de tudo isso. Veja no vídeo.

sábado, 26 de junho de 2010

Gazeta em forma de e-meio 113

Fidel Castro, o mais experiente estadista vivo e o homem mais bem informado do planeta, ao menos na opinião deste gazeteiro, tem escrito, ao longo dos últimos quatro anos, uma série de artigos de fundamental importância, os quais, além de serem leitura obrigatória nos espaços de poder em todo o mundo, gostem ou não dele, vêm iluminando a consciência, o conhecimento e a opinião de todos os que nos interessamos e lutamos pela paz, pela vida e pela natureza nesta nossa única e ameaçada nave espacial - o Planeta Terra.

Hoje, a Gazeta rompe seu recesso para traduzir e divulgar em nossa língua esta reflexão que Fidel Castro acaba de publicar no site Cubadebate, e que já está reproduzida em inúmeros sites de língua espanhola.


Como eu gostaria de estar equivocado!

Fidel Castro Ruz
Havana, 24 de junho de 2010.


Quando estas linhas forem publicadas no Granma amanhã, sexta-feira, o dia 26 de julho, data que sempre recordamos com orgulho a honra de haver resistido aos embates do Império, estará distante, apesar de só faltarem 32 dias.

Os que determinam cada passo do pior inimigo da humanidade – o imperialismo dos Estados Unidos, uma mescla de interesses materiais mesquinhos, desprezo e subestimação às demais pessoas que habitam o planeta – calcularam tudo com precisão matemática.

Em 16 de junho escrevi: “entre um jogo e outro da Copa do Mundo, as diabólicas notícias se vão produzindo pouco a pouco, de um modo tal que ninguém se ocupe delas". O famoso evento desportivo entrava então em seus momentos mais emocionantes. Durante 14 dias, as equipes de futebol integradas pelos melhores jogadores de 32 países estarão competindo para avançar até as oitavas de final; depois virão sucessivamente as quartas de final, as semifinais e a final do torneio. O fanatismo desportivo cresce incessantemente, cativando centenas de milhões e talvez bilhões de pessoas em todo o planeta.

Agora, é o caso de perguntarmos: quantos sabem que, desde o dia 20 de junho, naves militares norte-americanas, incluindo o porta-aviões Harry S. Trumman, escoltado por um ou mais submarinos nucleares e outros navios de guerra com foguetes e canhões muito mais potentes que os dos velhos encouraçados da última guerra mundial, navegam em direção às costas iranianas através do Canal de Suez?

Junto às forças navais ianques avançam navios militares israelenses, com armamento igualmente sofisticado, para inspecionar quanta embarcação parta para exportar e importar os produtos comerciais de que o funcionamento da economia iraniana necessita.

O Conselho de Segurança da ONU, atendendo a proposta dos EUA, com apoio da Inglaterra, França e Alemanha, aprovou uma dura resolução contra o Irã, que não foi vetada por nenhum dos países que ostentam esse direito. Outra resolução mais dura foi aprovada por acordo do Senado dos EUA. Posteriormente, uma terceira, ainda mais dura, foi aprovada pelos países da Comunidade Européia.

Tudo isto, antes de 20 de junho, o que motivou uma viagem urgente do presidente francês Nicolás Sarkosy à Rússia, segundo notícias, para entrevistar-se com o chefe de Estado desse poderoso país, Dmitri Medvédev, com a esperança de negociar com o Irã e evitar o pior. Porém, só nos resta calcular quando as forças navais dos EUA e Israel se encontrarão frente à costa do Irã, unindo-se ali aos porta-aviões e demais navios de guerra norte-americanos que montam guarda naquela região.

O pior é que, tal como os EUA, Israel, seu gendarme no Oriente Médio, possui moderníssimos aviões de ataque e sofisticadas armas nucleares fornecidas pelos EUA, que o converteu na sexta potência nuclear do planeta por seu poder de fogo, entre as oito reconhecidas como tais, que incluem Índia e Paquistão.

O Xá do Irã fora derrocado pelo aiatolá Ruhollah Komeini em 1979, sem o emprego de uma só arma. Logo a seguir, os Estados Unidos impuseram uma guerra àquela nação com o emprego de armas químicas, cujos componentes forneceu ao Iraque junto com a informação requerida por suas unidades de combate e que foram empregadas por estas contra os Guardiães da Revolução Iraniana. Cuba tem conhecimento disso porque era então, como já explicamos outras vezes, presidente do Movimento dos Países Não Alinhados. Conhecemos bem os estragos que causou na população iraniana. Mahmud Ahmadinejad, hoje chefe de Estado do Irã, foi chefe do sexto exército dos Guardiães da Revolução e chefe dos Corpos de Guardiães nas províncias ocidentais do país, que levaram o peso principal daquela guerra.

Hoje, em 2010, tanto os Estados Unidos como Israel, depois de 31 anos, subestimam o um milhão de homens das Forças Armadas do Irã e sua capacidade de combate por terra, e as forças de ar, mar e terra dos Guardiães da Revolução. A estas, se acrescentam os 20 milhões de homens e mulheres, entre 12 e 60 anos, escolhidos e treinados sistematicamente pelas diversas instituições armadas entre os 70 milhões de pessoas que habitam o país.

O governo dos Estados Unidos elaborou um plano para levar a cabo um movimento político que, apoiando-se no consumismo capitalista, dividisse os iranianos e derrocasse o regime. Tal esperança é já inócua. Chega a ser risível pensar que, com as naves de guerra estadunidenses, unidas às israelenses, despertem as simpatias de um só cidadão iraniano.

Por minha parte, acreditei inicialmente, ao analisar a atual situação, que a contenda começaria pela península da Coréia, e ali estaria o detonante da segunda guerra coreana que, por sua vez, daria lugar à segunda guerra que os Estados Unidos imporiam ao Irã. Agora, a realidade levou as coisas ao sentido inverso: a guerra do Irã desencadeará de imediato a da Coréia. O governo da Coréia do Norte, que foi acusado pelo afundamento da corveta sul-coreana Cheonan, e sabe de sobra que aquele navio de guerra foi afundado por uma mina que os serviços de inteligência ianques lograram colocar no seu casco, não esperará um segundo para atuar, tão logo no Irã se inicie o ataque.

É muito justo que os torcedores de futebol desfrutem as partidas da Copa do Mundo. Cumpro somente o dever de exortar o nosso povo, pensando sobretudo em nossa juventude, cheia de vida e esperanças, e especialmente em nossas maravilhosas crianças, para que os fatos não nos surpreendam, absolutamente desprevenidos.

Dói-me pensar em tantos sonhos concebidos pelos seres humanos e as assombrosas criações de que foram capazes em apenas uns poucos milhares de anos. Quando os sonhos mais revolucionários estão se cumprindo e a Pátria se recupera firmemente, como eu gostaria de estar equivocado!

Tradução: Mario Drumond
Revisão: Frederico de Oliveira

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Gazeta em forma de e-meio – Ano Novo 2010

Regalo de Ano Novo

O Sistema Nacional de Orquestras Juvenis e Infantis da Venezuela já se destacava pela nobreza, qualidade e importância da iniciativa desde que foi assumido pelo maestro José Antonio Abreu, há 35 anos. Nos últimos dez anos, recebeu da Revolução Bolivariana um impulso de tal ordem que o transformou em fenômeno mundial.

Segundo o site do Sistema (http://www.fesnojiv.gob.ve), atualmente participam 350 mil jovens e crianças que frequentam seus 180 núcleos de formação musical distribuídos em todo o país. No concerto de estréia do primeiro Centro de Ação Social pela Música, um portentoso edifício de 11 andares inaugurado ano passado em Caracas, que abriga uma enorme sala de concertos super bem equipada e especialmente projetada para execução de performances orquestrais, o presidente Hugo Chávez autorizou recursos para a construção de edifícios semelhantes em cada uma das 24 capitais dos Estados (nove deles já com obras iniciadas), a ampliação da capacidade para até um milhão de jovens e crianças e a criação de tantos núcleos quanto sejam necessários. A formação artística e musical é inteiramente gratuita e aberta a toda criança ou jovem com inclinação para a arte, e, à medida que evolui e se integra no processo, o aluno vai recebendo vários incentivos, como bolsas de estudo, instrumentos musicais, inclusão em conjuntos locais e regionais, colocações profissionais, etc.

“Venezuela semeada de orquestras” é o lema do Sistema que conta com o apoio total do governo revolucionário, o qual fez até aprovar legislação para que cada município, estados e nação sejam obrigados a constituírem suas orquestras, coros e outras formações musicais, em quantidades e dimensões proporcionais ao número de habitantes e aos respectivos orçamentos, criando assim o mercado de trabalho capaz de abrigar o grande número de profissionais que vão sendo formados.

Os resultados do gigantesco investimento não se fizeram esperar: o Sistema mantém hoje nada menos que oito grandes agrupações orquestrais e corais de renome mundial, e a principal delas, a Sinfônica Jovem Venezuelana Simón Bolívar, depois de sucessivas e ovacionadíssimas turnês nos EUA e na Europa, foi incluída pela crítica internacional entre as cinco principais orquestras do mundo.

Ao lado da China, a Venezuela tornou-se um celeiro de músicos de alta qualidade e muitos dos talentos ali revelados já possuem currículos de celebridades internacionais da música contemporânea, erudita e popular, com destaque para o regente Gustavo Dudamel, de 28 anos, que é considerado, sem favores, o maior maestro jovem do planeta e um dos mais importantes diretores de orquestra em atividade na música erudita contemporânea. Sua formação foi feita integralmente pelo Sistema.

Veja a apresentação de lançamento do seu álbum com a Sinfonia Nº 5, de Mahler, pela Deutsche Grammophone: http://www.youtube.com/watch?v=4exocK5kB9w&NR=1

Pelo incalculável valor de seu trabalho de educação musical, o maestro José Antonio Abreu tornou-se também um dos nomes da música erudita mais celebrados em todo o mundo, e tem recebido inúmeras e importantes premiações e condecorações por toda parte. Veja o seu depoimento, na ocasião em que recebeu o prêmio TED, que lhe foi concedido pelo município de Los Angeles, EUA, em fevereiro deste ano: http://www.youtube.com/watch?v=Uintr2QX-TU&annotation_id=annotation_740530&feature=iv

O governo da Venezuela estimula o Sistema a exportar gratuitamente a experiência e os métodos nele desenvolvidos e várias cidades, estados e países já começaram a implantá-lo, com a sua consultoria sem ônus, nos EUA, Europa, Rússia, Cuba e outros países da América Latina. Foi oferecido diversas vezes ao Brasil, inclusive com turnês da mais famosa de suas orquestras e o mais destacado de seus maestros, mas parece que o “sistema” daqui não achou boa idéia. Infelizmente.

O maior sonho deste gazeteiro é que a infância e a juventude brasileiras tivessem a mesma chance dos muchachos venezuelanos, em escala nacional.

Por isto, a equipe da Gazeta, formada por este gazeteiro e Fredera (responsável pela sugestão deste regalo) oferece aos leitores um brinde para este fim de ano e começo de década: o Concerto de Ano Novo 2008, completo, da Sinfônica Jovem Venezuelana Simón Bolívar, com a regência de Gustavo Dudamel, realizado em janeiro do ano passado, em vídeos muito bem gravados pela DW-TV (alemã) que podem ser acessados nos links abaixo, ordenados pela Gazeta na mesma sequência do programa e com os principais créditos artísticos.

É bom de ouvir, é bom de ver, é bom saber.

Ajustem seus fones de ouvido, e boa viagem!


Abraços

Mario Drumond


Concerto de Ano Novo da Sinfônica Jovem Venezuelana Simon Bolívar (SJVSB)

Realizado na sala de concertos do Centro de Ação Social pela Música de Caracas, em 1 de janeiro de 2008. Gravado ao vivo pela alemã DW-TV.

Vídeo 1 (Introducão - ao final deste vídeo, automaticamente se transferirá para o seguinte, e assim, sucessivamente, até o fim do concerto; os demais links seguem para publicar o programa e para o acesso direto a cada performance)

http://www.youtube.com/watch?v=7myRxFGatro&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=0&playnext=1


Vídeo 2 ("Gran Fanfarria", de Giancarlo Castro, com o conjunto de metais da SJVSB)

http://www.youtube.com/watch?v=C1CIlc88LAM&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=1


Vídeo 3 ("Guerra de Secciones", de Félix Mendoza, com o conjunto de metais e percussão da SJVSB)

http://www.youtube.com/watch?v=YQWX6uj-_YI&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=2


Vídeo 4 ("Sensemayá", de Silvestre Revueltas)

http://www.youtube.com/watch?v=BHZE0t10qpA&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=3


Vídeo 5 ("La Conga del Fuego", de Arturo Márquez)

http://www.youtube.com/watch?v=a5mutfzl6qg&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=4


Vídeo 6 (três mambos: "Que Rico el Mambo", "Mambo Nº 5" e "Mambo Nº 8", de Dámaso Pérez Prado)

http://www.youtube.com/watch?v=GouLmkd8HHI&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=5


Vídeo 7 ("La Cabra Mocha", de Pradelio Hernández, com Aléxis Cárdenas Ensamble: Aléxis Cárdenas, Violino; Diego Álvarez, Cajón; Jorge Glem, Cuatro; Gonzalo Teppa, Contrabajo)

http://www.youtube.com/watch?v=TL20cu-QEmI&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=6


Vídeo 8 ("Viajera del Río", de Manuel Yánez e "Vôo da Mosca", de Jacob do Bandolin, com Alexis Cárdenas Ensamble)

http://www.youtube.com/watch?v=K8eVLjH_O40&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=7


Vídeo 9 (Parte 1: "Fuga con Pajarillo", de Aldemaro Romero; solista: Alexis Cárdenas, violino)

http://www.youtube.com/watch?v=j-wXk5R77bE&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=8&playnext=9&playnext_from=PL

Vídeo 10 (Parte 2: "Fuga con Pajarillo", de Aldemaro Romero; solista: Alexis Cárdenas, violino)

http://www.youtube.com/watch?v=qGm5UNtZ6YM&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=9


Vídeo 11 ("La Muerte del Ángel", de Astor Piazzolla, com o Conjunto Atalaya, formado pela Seção de Percussão da SJVSB)

http://www.youtube.com/watch?v=58CKaJKg-Uc&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=10


Vídeo 12 ( "Mambo", de Leonard Bernstein, das Danças Sinfônicas de "West Side Story", versão do bis)

http://www.youtube.com/watch?v=mUKWo6M6NPY&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=11


Trailer de "A promessa da música" (Documentário de Enrique Sánchez Lansch, produzido pela DW-TV, Alemanha, 2008)

http://www.youtube.com/watch?v=G3AWMSVNWCs&feature=PlayList&p=38CE9FD46F6EDEEC&index=12

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Gazeta em forma de e-meio 111 – Especial

Caro José Sette,

Respondo, pela Gazeta, ao seu texto de justo desabafo, que segue na íntegra (e com os erros corrigidos), porque creio que o papo seja de interesse geral e as informações nele contidas são importantes e devem ser divulgadas. Suprimi apenas a crítica de Luiz Rosemberg, pois já a publiquei aqui. Começo por uma frase que o saudoso Rogério Sganzerla gostava de citar, parafraseando Fidel Castro, mesmo sabendo que ela não diminuirá o seu desânimo e até corro o risco de que ela o aborreça ainda mais.

Mas vou insistir: “a História está a nosso favor”.

Com ela, eu quero lembrá-lo de que você não está só, que o seu caso não é único e que eu me considero tão penalizado quanto você e os demais companheiros que atravessamos o interminável deserto sem miragens (isto é, sem visões, sem cinema) em que se transformou a comédia desumana da criação nacional, na infeliz quadra das três últimas décadas.

Não é que antes estivéssemos em terras férteis; já nos havíamos com um deserto, mas, com belas miragens e alguns oásis. Lembro-me bem que, juntos, no último oásis em que se constituiu a Oficina Goeldi, quando, em 1980, abrigou o Encontro de Cinema Independente que o Sylvio Lanna agitou aqui em BH, tentamos – e conseguimos – plantar coisas, e fazê-las vingarem. Nós, que na juventude recusamos vender nossas almas ao diabo acreditando que seríamos capazes de resgatar o mundo de suas mãos, enfrentávamos de peito aberto todas as tormentas, e de muitas saímos vitoriosos – e como! E foi assim, cada um por sua via, mas ambos crédulos, sem mais nada a não ser a confiança em si mesmos, é que adentramos corajosamente o deserto, esse labirinto sem paredes, em que ainda permanecemos buscando uma saída.

Quando, depois de alguns passos irreversíveis na aridez espinhosa em que nos metemos quase sozinhos, percebemos a derrota, até tentamos negociar com o diabo, mas era tarde... Eu, mudando-me com a Oficina Goeldi para São Paulo e, anos depois, para o Rio. Você, entregando de mão beijada a sua obra cem por cento brasileira e a sua própria carreira de cineasta nas mãos de Mefisto em pessoa, na doce crença, talvez por não ver outra alternativa no horizonte, de que, por um milagre que jamais aconteceu, ele se tornaria o seu anjo da guarda. A ambas, obra e carreira, Mefisto desde então sequestrou do público (pagante e não pagante). O inferno só negocia com carne fresca e tenra, José, e nós já estávamos para lá de maduros. Mesmo sabendo que este inferno latino-americano é um inferno subdesenvolvido, morno e que só tem para negociar mal resolvidas questões de pecúnia (nunca a Glória – esta é capital exclusivo dos diabos do norte), nós queríamos, sim, e tentamos negociar. E só conseguimos a lista negra, compadre.

No entanto, se não podemos culpar a ninguém, exceto a nós mesmos, pelos dissabores que sofremos, não caminhamos em vão: se ainda não vingaram nem deram frutos os nossos plantios dessa quadra, a verdade é que em nenhum momento deixamos de cultivar sementes raras, bravas e resistentes que haverão de brotar mesmo no deserto e alimentar os passos peregrinos dos que virão depois de nós. É a História. Nós enganamos o diabo, José. Amaxon é filme para uma platéia futura, a que um dia renascerá da que morreu com Glauber Rocha, em 1981.

Cuba tem sérios problemas estratégicos para enfrentar e não pretende aumentá-los escolhendo filmes brasileiros para seus festivais de cinema. Mais fácil para Cuba é deixar que o diabo daqui o faça. Por sinal, o mesmo que decide quais filmes entram no festival potiguar, no das peruas de Tiradentes e no de Quixeramobim. Você crê que alguém decide o que da produção nacional vai ser exibido nas telas, as pequenas e as grandes, daqui e de fora, a não ser ele (ou “eles”, como diria o Fredera)?

Recordo-me que, no Encontro de Cinema Independente, era forte o espírito do Glauber, mesmo sem que estivesse presente, e o Sérgio Santeiro fez uma inesquecível defesa da obra dele, desfazendo muitos dos aspectos negativos da criativa polêmica que então se travava entre Glauber e os independentes, com as proas de Júlio e de Rogério.

O Festival de Brasília de 1981, que, com Um Sorriso Por Favor, ganhamos com valentia oswaldiana e glauberiana, foi o primeiro sem Glauber, que fora assassinado há poucos meses, e ali percebemos, como nunca antes, a falta que ele fazia (e faz!). Glauber possuía o dom inigualável de denunciar, desmascarar e desmontar, com impiedosa habilidade, toda a charlatanice velhaca dos que tentam frustrar, fraudar ou mudar a História, como os atuais organizadores de festivais que nada sabem ou não aprenderam daqueles que os antecederam e que deveriam reverenciar - para citar só alguns: Cosme Alves Neto, Wilson Coutinho, Frederico Morais, Ronaldo Brandão, entre outros mestres em arte e cinema que tivemos o privilégio de conhecer de perto, e recebendo deles a consideração e a admiração com que sempre contemplaram a nossa ousadia criadora.

O que já é definitivamente História e que muito nos orgulha. Por que alguém tentaria frustrar, fraudar ou mudar a História, se nenhuma dessas pretensões é possível de realizar-se, uma vez que o passado é imutável?

Elementar, meu caro leitor: é que a História está contra “eles”.

José, receba a solidariedade deste seu companheiro de sucessos e desditas; você, exímio escritor audiovisual, não precisa se desculpar por erros de ortografia e digitação.

Um forte abraço do

Mario Drumond


Segue a íntegra de seu desabafo:


AMAXON

Não queria mais falar sobre o complexo e misterioso sistema que movimenta o cinema brasileiro, mas, com as últimas notícias recebidas, não posso me furtar a algumas verdades e tenho que escrever, talvez, um último libelo sobre a ignorância dos organizadores de mostras e festivais de cinema por todo o país e também no exterior.

O cinema, para mim, mais que a literatura, é uma leitura sofisticada do saber humano aos olhos de um observador atento. Um observador que saiba ver e tenha visões.

Alguns observadores são distintos: um intelectual bem informado; um bom artista; um ser inteligente, alguns pretensiosos, outros destrutivos; um crítico pernóstico, invejoso; um taumaturgo apaixonado pela magia do audiovisual; um déspota disposto a por fogo em Roma; um anarquista desordeiro; um músico sensível e outro ordinário; um pintor de quadros e outro de paredes; um burocrata arrogante; um profissional libertino; um liberal punheteiro; prostitutas e madames, autores e estrelas. Qual destes personagens viu Amaxon?

Para cada espécie de observador existe um texto, um filme específico, que na certa ele vai se identificar e gostar, mas a grande maioria dos que observam a grande tela são diletantes, pessoas que entram na sala de cinema levadas pela mídia, hoje massacrante, das grandes empresas de comunicação.

Essas pessoas, da classe média, que não passam de 12 milhões de espectadores, fazem o público alvo para os grandes sucessos dos filmes nacionais e estrangeiros. São eles que geram o aumento da fortuna daqueles privilegiados que já estão muito ricos, produtores e exibidores, pois continuam produzindo no Brasil os seus filmes comerciais com os milhões necessários da renúncia fiscal. Pergunto: por que não se cria um cine-banco de investimento para os filmes que pretendem conquistar o grande público?

O processo político-cultural precisa urgentemente de uma reforma de base.

Digo isso para mostrar que os festivais de cinema no Brasil, também produzidos com valores superiores a um milhão de reais e incentivados com dinheiro da renúncia fiscal, deveriam continuar a existir, mas redirecionados ao observador atento às novidades do mundo cinematográfico, atento para o novo, em termos de estética e de linguagem, e tudo mais que o cinema contemporâneo e de invenção feito no país está criando - são geralmente filmes de baixíssimo orçamento, novos e experimentais -, e não unicamente direcionar o olhar inteligente para os filmes que têm todas as mídias à disposição, com lançamento simultâneo em salas por todo Brasil. Para que eles precisam dos festivais?

Não estamos falando de impedir que as grandes produções sejam exibidas nos grandes e pequenos festivais - são mais de cem festivais no Brasil -, mas, sim, de que cada festival tenha espaço para o cinema inventivo, visionário, poético, diferente daquilo que o público está acostumado. Um cinema de artesão. Na questão do filme Amaxon, meu único interesse era de exibi-lo, de graça, para um público seleto que freqüenta os festivais – nada mais.

Nunca se deveria recusar a exibição de um filme como este, que é, no mínimo, uma nova contribuição ao pobre universo das artes cinematográficas brasileiras, especialmente por ele ter sido realizado por um diretor – produtor – fotógrafo – roteirista – editor experiente e consagrado, com mais de vinte filmes de longa, média e curta metragem produzidos, alguns deles até bem premiados. Alguma coisa anda errada com as cabeças do poder neste país.

Faz muitos anos que não mandava meus filmes a nenhum festival de cinema. Eu já sabia quais eram os critérios adotados por todos eles – a exibição e seleção única dos filmes que possam interessar ao grande público, excluindo todos os outros que possam criar polêmicas desnecessárias e incômodas para a indústria do entretenimento.

Por insistência da família, preocupada com o meu isolamento, pedi ao jovem fotógrafo do meu filme que remetesse um DVD para os últimos três festivais que, no final deste ano, apresentavam-se abertos a novas inscrições. Pareceu-me interessante a experiência: Cuba – Natal – Tiradentes. E me preparei para o pior, pois fico arrasado quando recusam o óbvio irrecusável.

É quase um acinte: o filme foi sumariamente recusado, como eu previa, pelos três festivais.

Recusado três vezes pela ótica mercantilista, retrógada, mesquinha, insensível, colonizada, cega e estúpida de observadores de porta de festival, desatentos; principalmente os nacionais, como os de Natal e de Tiradentes. Pensando bem, eles estão certos em recusar o meu filme – polêmico, anarquista, novo, inteligente, poético, inventivo, provocador – diferente de tudo que tenham assistido.

Amaxon, para um amador, é hostil, hermético; é difícil aceitá-lo. Eu é que estou errado em ter mandado às considerações deles minha pequena obra-prima. Mas a recusa de Cuba, em mim, foi a que causou o maior espanto. Eles podiam até não gostar do filme, talvez, por não entenderem ou se sentirem agredidos com o enorme caralho que avança na mão de uma donzela angelical, numa dança erótica, em direção ao assustado burguês. Ou, quem sabe, chocados com a poesia louca, abstrata e inventiva da criação? Mesmo assim não tinham o direito de excluir um filme que é libertário, e também de vanguarda, e posso até dizer, comunista, pois trata o texto poético do massacre capitalista contra a liberdade de criação de uma escritora, uma artista, encurralada pela vida.

Espero que a cópia em DVD deste filme caia em boas mãos, nos bastidores da burocracia e seja pirateado, para que muitas pessoas, independente da censura dos festivais, possam assisti-lo. Pois, na certa não ficarão imunes ao que ele tem para dizer.

Quanto a vocês, organizadores de festivais estatais do cinema brasileiro, que nunca fizeram cinema, mas que vivem e muito bem dele e estão sempre acompanhados por jovens burocratas da arte, vampiros oriundos das universidades dos picaretas, vips que se espalham pelos brasis afora, viajando como consultores, censores, selecionadores, jurados e professores de oficinas de cinema, que vivem às custas do erário e que são muitas vezes também financiados por fundações estrangeiras e hostis aos interesses nacionais, é preciso que aprendam a respeitar os artistas mais velhos, os que ainda permanecem rebeldes e iconoclastas, mesmo sem compreendê-los, pois eles representam o seu futuro.

Cabo Frio, dezembro de 2009.

José Sette