segunda-feira, 16 de maio de 2011

Gazeta em forma de e-meio 118

Este mundo é um hospício
(sem aspas, pois o filme do Capra fica “no chinelo”)

Passei dois dias e duas noites num hotel de cidade do interior e, no tempo vago, não tinha outra saída senão ligar a TV: lixo, lixo e mais lixo. A GloboNews estava 24 horas no ar com a façanha Obama x Osama; de manhã, de tarde, de noite e de madrugada, nas vezes que passei por seu canal. Numa delas, decidi ouvir o que falavam quatro senhores reunidos numa sala cenográfica. Um deles, o que falava mais, reconheci como um “jornalista” de variedades que às vezes é visto cobrindo um bueiro que vazou e outras entrevistando gente na rua. O rapaz era o mais empolgado com a façanha de seu amigo Obama. Falava como se acabasse de sair de uma reunião com “o Obama”, “a Hillary” e “o Gates”, e era assim que os tratava, como se os frequentasse na intimidade. Os outros também se assanhavam e quando conseguiam abrir a boca era para acrescentarem algo e mostrarem-se igualmente “bem informados”. “O Obama decidiu acabar com os inimigos da América” – dizia o empolgadão, entre anuências e apartes dos demais – “e decidiu que agora não tem mais protelações diplomáticas, conversa mole ou firulas demagógicas. O Kadafi, o Fidel, o Chavez, o Ahmadinejhad e outros ditadores menores já estão na mira”.

Na década de 70, se aqueles quatro fossem pilhados num delírio desses seriam imediatamente encaminhados ao hospital psiquiátrico mais próximo.

“Comunidade Internacional” é um termo sem significado objetivo que designa coisa inexistente, isto é, uma ficção (de má qualidade). Uma pesquisa exata do termo (entre aspas) que acabo de fazer no Google encontrou-o em 2.210.000 páginas web em língua portuguesa. Em espanhol, “comunidad internacional”, 4.240.000; em inglês, “international community”, 16.300.000 (o Google agora deu para “arredondar” a quantidade de seus “achados”). A globalização é uma ficção de má qualidade. Cuidado, leitor, ela pode levá-lo ao reino da fantasia onde, ao menos virtualmente, deve habitar a tal “comunidade internacional” devidamente disneyficada, macdonaldizada, plastificada e radioativa.

A palavra “terrorista” designa pessoa, conjunto de pessoas, entidade ou até coisa que revele patriotismo, que promova a soberania de sua nação, a autodeterminação de seu povo e atue ou lute para defendê-las. O sinal da TeleSur, por exemplo, é considerado pelo Congresso dos EUA como um “sinal terrorista”.

O “Ocidente” (outra palavra que tem sido usada, para além de sua significação geográfica, como um termo sem significado objetivo e que designa coisa inexistente) ficou barbarizado com a escândalosa notícia de uma mulher iraniana que teria sido condenada à “morte por apedrejamento” por ter cometido adultério. Todas as matérias mostravam a mesma foto de uma mulher vestida de negro em que só lhe aparecia o rosto, mas isto era o bastante para que todos vissem que se tratava de uma mulher lindíssima.

“Progressistas” de todos os matizes e níveis intelectuais, de classe, de poder político (até presidentes de repúblicas), inclusive notórios racistas e ao menos três dos sete sábios do Sion de “última geração” (Sarkozy, Aznar e Blair), esbravejaram aos quatro cantos contra a barbaridade em prolixas análises daquela atrasada sociedade muçulmana. Porém, só um jornalista, o francês Thierry Meyssan (RedVoltaire), decidiu investigar o caso e demonstrou que era tudo mentira (ver http://www.voltairenet.org/article167005.html, em espanhol). Uma completa mentira. Depois, internautas descobriram que a foto era a de uma modelo inglesa, e que tinha sido feita para um anúncio de cosméticos.

Um nota de conhecimento geral: a pena de apedrejamento por “crime de adultério” fora instituída por Moisés, Rei dos Judeus, e teria sido revogada por Jesus Cristo com o célebre desafio a quem atirasse a primeira pedra. Há mais de dois mil anos!

Todos os dias, em algum lugar das manchetes principais e de algum lugar da União Européia ou dos EUA, um sempre diferente senhor, sempre muito bem vestido e sendo apresentado como “autoridade” civil ou militar da “comunidade internacional”, fala a jornalistas muito bem vestidos e bem comportados para declarar sua “preocupação” com a população civil da Líbia e a necessidade de bombardeá-la para protegê-la da sanha assassina do “ditador” que a governa. O discurso é sempre breve e exatamente o mesmo, todos os dias! Os jornalistas manifestam aquiescência em unânimes e bovinos movimentos de cabeça. O “republicano público”, idem. Todos os dias, há mais de dois meses!

Na TeleSur, Walter Martinez desmascara esse autismo midiático com seu estilo crítico sutil e cada dia mais implacável.

O herói do governo dos trabalhadores no Brasil faleceu há pouco. Era um empresário que lutou contra o câncer que o matou, tal como fazem quase todos os que sofrem da terrível moléstia, só que, no caso dele, com (muito) mais grana. Um jornal daqui de Minas deu a seguinte manchete: “Um grande lutador, mas sem perder a ternura”. Quer dizer, Che Guevara que se cuide. Mas a “ternura” do empresário não fora bastante para que ele aceitasse se submeter a um exame de DNA por petição de uma moça que alega ser sua filha e que só quer ser reconhecida pelo pai. No prontuário da “ternura” do nosso herói consta também a orientação de sua empresa em só contratar mulheres que comprovassem ligação de trompas. Nos anos 80, o excesso de operações desse tipo na cidade onde ficava a fábrica chamou a atenção das autoridades e processos foram movidos... e, depois, sumiram.

Aliás, a fábrica fora subsidiada pelo governo da ditadura militar para produzir tecidos para a população brasileira e não podia ser vendida a estrangeiros. Mas o esperto empresário vendeu a fábrica sem vendê-la ao vender toda a produção dela por vinte anos futuros para os chineses, os quais trataram de tirá-la do mercado nacional para abri-lo aos tecidos made in China. Depois desse negócio da China, o espertalhão lutador comprou uma cadeira no Senado e viveu feliz para sempre... ou ao menos até que o câncer foi diagnosticado.

Para provar que foi o Osama mesmo que morreu, os caras o jogaram no fundo do mar e não deixaram ninguém fotografar o falecido. Mas disseram que verificaram o DNA do monstro e que foi o corpo dele, com certeza garantida pelos tripulantes de um porta-aviões, que mandaram para as prefundas oceânicas. Esses tripulantes não podem dar entrevistas mas deviam ter conhecido o Osama desde criancinhas pois juraram com uma das mãos sobre a Bíblia e a outra sobre o Corão que era o corpo do próprio que puseram no saco preto. Além do mais, rezaram em coro na ocasião do funeral marítimo em honra do falecido e dos que o assassinaram. Quem não quiser acreditar, que resgate o corpo para conferir. Quem sabe a turma que resgatou as caixas pretas do Airbus topa a parada?

E a feminista Dilma Roussef chorou no caixão do nosso herói, beijando para as fotos o seu heróico rosto, ao mesmo tempo que impunha uma significativa e “feminista” distância diplomática e política da República Islâmica do Irã por causa da “futura apedrejada”.

Haja aspas para estes tempos ásperos, leitor.

Numa edição de jornal televisivo, o âncora “informou” que a descoberta do esconderijo de Bin Laden só foi possível graças aos “novos métodos de interrogatório” praticados na prisão de Guantânamo. E exclamou, inusitadamente, olhando com desafiadora firmeza para os “da poltrona” como se estivesse abrindo e grifando um parênteses “(ou TORTURA, se VOCÊS quiserem!)”. Não queremos não, seu âncora; VOCÊ (e seus patrões) é que quer(em). Na pele dos outros, claro, especialmente de muçulmanos e cucarachas.

No Brasil governado pelos trabalhadores, a reforma agrária foi substituída pelo agronegócio como política de governo, a qual atende pelos nomes Monsanto e Eike Batista.

“Direitos Humanos” tornou-se um termo sem significado objetivo que designa etc... e a palavra “democracia”, entre esses termos, já é puta velha.

O discurso do Obama dando a notícia da morte do Osama foi doidão, foi ou não foi? Bããã... Será a influência do amigo dele da GloboNews, o que mencionei lá em cima?

Nas vizinhanças da Usina Nuclear de Fukushima, antes do tsunami, ia de vento em popa uma campanha anti-tabagista com base no slogan: “Não fume nas ruas, deixe a saúde passar”. Um dos patrocinadores era a empresa dona da Usina. Em parte, foi bem sucedida: não há mais fumantes nas ruas; aliás, não há mais ninguém. Pois o que passou e ainda passa por lá é outra coisa... que não fuma e morava lá há muito tempo sem sair de casa.

Isto pode dar uma série. O leitor pode colaborar.


Post Scriptium: o que está escrito acima “é tudo verdade”, como dizia o Rogério.

domingo, 27 de março de 2011

Gazeta em forma de e-meio 117

É difícil, Rogério!

Desculpe-me, companheiro, mas não resisti ao trocadilho. Veio-me imediatamente à memoria aquele dia em que caminhávamos por uma das ruas de Ipanema, não sei se a Barão ou a Nascimento, quando demos com um certo edifício que exibe um nome pomposo numa fachada medíocre: "Edifício Marcel Proust". E você, na mesma hora, saiu com uma das suas: "Ah, então era esse o ‘tempo perdido’?!"

Era muito engraçada a maneira com que você soltava (ou exclamava) seus chistes, quase sempre em interrogações. Não nos restava senão dar boas gargalhadas entre as muitas que demos pelas ruas e becos da amargura naqueles cinco anos da primeira e infeliz metade da década de 90, em que nossos destinos se cruzaram no Rio de Janeiro. Ambos penávamos um injusto ostracismo e uma imerecida maldição por conta de nossas rebeldias irmãs e revolucionárias que, desde os anos 60/70, vimos cometendo em nome da resistência cultural. Pelo menos, aquele não foi um tempo perdido para nós.

O que você não podia imaginar naquela hora é que ia também virar nome de edifício, Rogério. Sim, o nome do seu livro agora publicado - e este é o motivo desta segunda carta - foi intitulado Edifício Rogério. Não se esclarece o que motivou esse nome, digamos, exótico (para não dizer esdrúxulo - você o vetaria, claro), mas na capa do estojo de papel-cartão (o livro são dois livros dentro dele) imprimiram uma foto de você todo sorridente na comemoração dos seus sete anos de idade, diante de um bolo de aniversário em forma de edifício onde vão os dizeres: "Edifício Rogério". Não há, também, explicação do que isso tem a ver com o conteúdo. No primeiro livro são publicados 29 de suas colunas no Estadão e, no segundo, 28 delas na Folha de São Paulo.

Não posso dizer que o conheci bem naqueles anos de convivência, mas o pouco que conheci basta para que eu diga que você NÃO era um intelectual do tipo "meus oito anos" ou "minha terra tem palmeiras". Sua obra, sim, posso dizer que a conheço bem, tanto a cinematográfica quanto a literária, e nela nunca encontrei uma só referência saudosa de sua "infância querida" ou de sua terra natal. E em sua residência, pelo menos enquanto a frequentei, Joaçaba sequer tinha o status de "uma fotografia na parede".

Não estou dizendo que você abjurava ou se envergonhava das origens provincianas e pequeno-burguesas em que viveu a infância e a adolescência. Penso que simplesmente as guardava para si, num silêncio tímido. As revelações e insights que o iluminaram em São Paulo abriram para você um universo tão completamente novo e tão afastado daqueles cenários quanto você e sua obra eram distantes de pieguices sentimentais.

Gilberto Vasconcellos costuma dizer que os cineastas brasileiros que se destacaram na década de 60/70 eram quase todos "filhos-de-algo". Uns tinham pai, outros mãe, ou avô, ou tios com nomes e sobrenomes conhecidos, e que volta e meia frequentavam a balbúrdia midiática e festiva em torno deles e de seus filmes. Mas você, não. Os Sganzerla nunca vieram para o baile (e acho que não aceitariam o convite), nem havia entre eles, antes de você, alguma celebridade. Você surge como um cometa no cenário nacional, a partir de São Paulo, sozinho, sem pai e sem mãe, e foi assim até o último de seus dias. “Esse desenraizamento influiu em sua carreira, ou melhor, em sua correria, em sua errância de cineasta”, escreveu Gilberto no prefácio de Tudo é Brasil.

A definição da capa (e das ilustrações, quando se justificam - o que não é o caso desse “edifício”) é um dos trabalhos mais importantes de um editor de livros. Com certeza, os arquivos do Estadão e da Folha conservam fotos de você trabalhando na redação, ou na gráfica, ou na máquina de escrever (em que você era bamba), ou ao lado de conhecidos nomes do jornalismo (como o de Décio de Almeida Prado, seu padrinho de iniciação), que dariam ótimas capas e ilustrações pertinentes ao projeto editorial. Mas seus “editores” utilizam imagens de sua infância e adolescência, inclusive na capa. Para ilustrar o que, afinal? Atribui-las a uma semiótica mal intencionada, no sentido da insinuação de uma (absurda) componente ingênua ou naive em sua obra, seria superestimar a argúcia deles. Se, pelo lado da boa fé, quisessem aludir à sua precocidade, eu digo que se faria necessário um resumo biográfico ou um texto que informasse o leitor a respeito. Mas é que esse pessoal, quando se depara com material muito acima da média intelectual à que frequenta, costuma apelar para o “diferente”, o “inusitado”, o “engraçado-engraçadinho”, e acaba se estrepando em equívocos ou disparates delirantes. Não são editores, nem fazem livros para leitores. Tem acontecido muito: livros feitos por pessoas que não leem para pessoas que não leem. Para ambos, nada tem importância.

Contudo, o mais inusitado é o tratamento exegético da sua obra.

Cara!!! Não é que aconteceu agora justamente o que eu queria evitar quando, em 2004, dei aquele Alô Alô pra você! No início, até que começou a dar certo para nós e o nosso projeto. Depois do Alô Alô, saiu Tudo é Brasil e, na sequência, editores italianos, que fazem livros de pessoas que leem para pessoas que leem, o publicaram na bela língua deles, em impecável trabalho editorial. As três edições bateram bem onde chegaram (o leitor pode conhecê-las em http://marioobras.blogspot.com/2009/03/2004-critica.html).

A jogada era levar seus escritos, que, como seus filmes, são bandeiras da nossa geração, às novas e futuras gerações. Você e sua obra emulados por nomes chegados ao espírito culto e irreverente que caracteriza a sua/nossa inquietação, uma vez que ainda temos alguns – e dos bons! - que permanecem na batalha, empurrando o carro pesado da revolução.

Mas eis que você aparece escoltado (e ocultado, como veremos) por nomes de que eu nunca tinha ouvido falar; certos doutores e outros acadêmicos que devem ser bem conhecidos lá na Universidade de Santa Catarina, a qual chancela (e contamina) a edição junto ao logotipo do Banco Itaú. No que toca às chamadas "Ciências Humanas", as universidades são todas iguais: são entidades embalsamadoras do pensamento e do espírito (apesar de uns poucos resistentes que nelas insistem em permanecer). E no que toca aos bancos, nem é preciso dizer; são clones que se multiplicam com diferentes logotipos. O Itaú acaba de conquistar o título de maior sanguessuga da miséria do nosso povo ao anunciar um lucro pornográfico de R$ 13 bilhões em apenas um ano. Ou seja, a meia dúzia de acionistas daquela "produtiva" instituição abocanhou 1 bi (cerca de cem loterias) por mês, e ainda teve direito a 13º!!!

Você também contribuiu para esse lucro com o seu grão de areia, camarada. A merreca (para eles) gasta a título de "patrocínio" foi 100% abatida do imposto de renda daqueles safados, via Lei de Incentivo. Quer dizer: nós, o povo brasileiro, pagamos a conta. E não economizaram: dois livros na “caixinha”, dois coordenadores, dois prefaciadores, dois orelhistas, etc e tal. Com certeza, com cachês bem pagos, claro, mas quem garante é você! Ao menos no meu caso, as 70 pratas que gastei na compra da "caixinha" foi porque eu sabia quem estava nela, independente do que viesse junto (Helena não fez a gentileza de enviar-me um exemplar, nem a moça do Itaú, a quem, um tempo atrás e a pedido dela, enviei um exemplar de Tudo é Brasil).

Mas ainda não chegamos no pior, que é o embalsamamento (que palavra desgraçada) da sua literatura pelos magníficos doutores professores da UFSC. Os curriculum vitae não foram publicados talvez por serem de notórias autoridades na matéria, e é a minha ignorância que não alcança essas altas esferas do conhecimento.

Ludovico Silva, um gênio venezuelano nosso contemporâneo que você teria adorado conhecer (ele fez a última viagem pouco antes de você), e que só agora a Revolução Bolivariana da Venezuela vem revelando, diz o seguinte a respeito desse processo:

"Todos aqueles que, por não dar as costas à História e têm procurado dotar suas teorias de um sentido transformador e não indiferente à ação sobre o mundo empírico, ou bem tiveram de se retirar da filosofia acadêmica, ou bem são considerados por esta como "não filosóficos", o que, em outras palavras quer dizer simplesmente "bastardos". Um bastardo dessa natureza foi Karl Marx, cujo mundo teórico sempre foi intragável para os estômagos acadêmicos, ainda que, em larga escala, esses estômagos têm demonstrado uma resistência capaz de digerir, academizar e dissecar a obra de Marx, a ponto de torná-la irreconhecível. Tão irreconhecível que o Marx que circula como mercadoria filosófica nas universidades passou a ser um mero "interpretador" o qual, por sua vez, deve ser também interpretado, pelo que se foi perdendo todo e qualquer vestígio do sentido último de suas teorias, que era o de transformar e mudar o mundo."

Esta foi uma das razões que levaram boa parte da nossa geração a cair fora das universidades e da hipocrisia academicista. Se nesse trecho de Ludovico substituirmos o nome de Marx pelo seu, Rogério, teremos o que estão buscando fazer com a sua obra a partir do Edifício Rogério, "edifício" que é só de fachada, como o do bolo de aniversário da foto de capa. Seus exegetas se comportam como os de Marx, que Ludovico denuncia. Fazem uma leitura "dinâmica" da sua obra, e engessam-na em “análises” do tipo formal-com-formol. Escrevem como se dissessem aos alunos: - o autor tem lá sua importância, mas vocês não precisam se dar ao trabalho de ler os calhamaços que escreveu, pois o que interessa sobre ele e sua obra está na página tal da minha apostila.

Notável é o grilo desses caras com palavras que frequentam com assiduidade os seus/nossos textos, tais como gênio, revolucão, irreverência, liberdade, resistência, inteligência, imperialismo, colonialismo, e não duvido que se contarmos todas vamos a mais de um terço do léxico. Discurso revolucionário eles chamam de “dicção inflamada”; irreverência é “sintaxe inusual”; liberdade de linguagem é “colagem de signos aparentemente díspares”; e por aí vai... É um preconceito que resulta numa limitação fatal à livre expressão de qualquer idéia. O estilo é coisa proibida; ao ler orelhas e prefácios, a impressão é a de que dizem a mesma coisa pelo mesmo autor, com ligeiras alterações de forma, e, para o seu caso, com permissivas “licenças poéticas” e arroubos “criativos” que só chegam ao lugar comum e à banalidade (na verdade, tentam mostrar que são mais criativos que você).

Em essência, o seu exegeta é um só, como sugere Ludovico: o estômago acadêmico. Uma espécie de norma ISO de redação exegética que só pode dar em mediocridade.

Assim, a presença de Noel Rosa na sua obra não se dá porque você o considera "o mais revolucionário dos cantadores da tristeza da raça negra", como escreve em uma de suas colunas da Folha, que é publicada no próprio livro 2, na página 53, mas é "por (Noel) introduzir uma nova poesia urbana na música popular brasileira, com amor, humor e dor", como pontifica vazio e piegas o seu exegeta, tentando ser poético.

Também João Gilberto é frequente em sua obra não porque você o vê como "único solitário insubmisso cantor brasileiro a não alienar ao povo desse país-continente a possibilidade daquela inteligência e concentração necessárias a uma maioridade cultural" (pag. 53, livro 2), pois o professor nos ensina que é "por (JG) criar uma batida inaudita e uma bossa nova de cantar, na música popular brasileira internacional" (???).

São inúmeras as passagens em que você expressou a sua admiração pelas referências fundamentais da sua obra: Welles, Oswald, Godard, Noel, etc. Nenhuma é citada. Aliás, sempre quando o citam, não o fazem literalmente. Eles “explicam” você. Ao invés de abrir aspas e lançar suas linhas geniais sobre o assunto, como várias vezes fez Gilberto no prefácio que mencionei, ao mesmo tempo apoiando suas idéias e estimulando o leitor a embarcar na sua obra, tentam uma “simplificação didática”, numa postura distante e blasé, como a de quem diz: - é o autor que pensa assim, eu não tenho nada com isso, sou apenas um observador.

Um outro exemplo é o de Hendrix. Você, em nosso Alô Alô (pag. 95): "Dzin, jin, gênio, nuntius (em latim, enviado) ou como quiser nomear aquilo que é inominável (...) aquele ser movido por uma graça que faz a história vibrar e ameaça o transcorrer acadêmico das coisas". Como esse texto, apesar de ter sido publicado na Folha, não está na “caixinha”, não sei se os caras o leram. Mesmo assim, a forte presença de Hendrix na sua obra precisava ser “explicada” e ajustada ao conformismo ideológico acadêmico; o que resultou na seguinte banalidade professoral: “por (JH) transformar a microfonia com música, numa orquestração radical de sons e cores na guitarra elétrica".

E, "durma-se com um barulho desses"! Os “corretivos” acadêmicos-mumificadores de seus originais conceitos não acadêmicos dos três exemplos acima estão na página 13 do livro 2, num só parágrafo! O bastante para que um jovem leitor inteligente abandone o livro, já bocejando e pensando que o tal "Edifício Rogério" não está com nada. Nossas edições "bastardas" sequer são mencionadas, nem como tais; e até a italiana - de "primeiro mundo", como eles dizem - é omitida; elas simplesmente não existem.

A indiferença com que "patrocinadores", coordenadores e exegetas o tratam e à sua obra é revoltante. Você e sua obra são para eles como cadáveres de indigentes em aulas de anatomia. O que interessa não são os textos nem você (cadáveres), mas as pontificações dos doutores ao dissecá-los. Assim como as fotos estão lá para ilustrarem coisa nenhuma, seus textos estão lá para não serem lidos. Fotos e textos são usados, disfarçadamente, como "documentos" da dissecação, mas nem a isto alcançam. Acabam como “anexos” meramente formais, sem qualquer vínculo ou compromisso com uma idéia ou projeto editorial consistente. Não há sequer a informação sobre o universo pesquisado e dos critérios de escolha e seleção de textos, fotos e iconografias, se é que houve algum. Para mim, o único critério visível é o “por sorteio”. É que o outro olho (interesse principal) estava fixado nos cachês, nos badalos da imprensa e nos convescotes burgueses de lançamento, já que o sucesso destes, mais uma vez, quem garante é você (e nós, pagando a conta).

Esse “tratamento” editorial não atinge macacos velhos como eu e os da nossa geração, mas pode causar sérias perdas de jovens leitores que, na desorientação desinformativa em que vivemos, necessitam alguma informação prévia sobre a leitura que devem encarar para sair da cegueira em que o Sistema (leia-se Banco Itaú and Brothers) pretende submetê-los a fim de neutralizar neles todo e qualquer potencial de rebeldia.

É um método de ocultação muito usado atualmente: cobrir o "cadáver" de exegeses elogiosas misturadas a badalos socialaites e dotá-lo de um caixão (ou "caixinha") feito sob medida para impedir que dele possa escapar qualquer luz de imortalidade. Pois, se não é isto, a ocultação do gênio revolucionário em camuflagem de rigor acadêmico com chancela oficializante de uma UF da vida não teria Banco Itaú patrocinando obras de Rogério Sganzerla. Os pilantras sabem onde põem o bico.

Podemos compreender que Helena e as “meninas” precisem da grana, mas, qualquer tenha sido ela, garanto que melhor negócio seria dar continuidade ao nosso projeto pela via alternativa, independente, pela nossa via – a sua via, Rogério! Temos condições de fazer um trabalho de fato importante e consequente. Eu disse à Helena que dinheiro seria fator secundário. Mas essa obscura publicação - ela, sim, bastarda, feita para fracassar e para que o fracasso seja atribuído a você - já ameaça queimar o seu nome e o ineditismo de sua obra literária, que muito favoreceriam o nosso projeto.

Não podemos permitir que obras como as suas sejam diluidas e ocultadas dessa forma; elas são preciosidades que muito contribuem para nos tirar da big bosta brazil em que estamos metidos. E digo mais: é pelas luzes emitidas por obras como as suas - e as dos que o antecederam e o sucederem em genialidade e consciência revolucionárias - que a humanidade haverá de encontrar o caminho para superar sua própria estupidez.

Contudo, ainda penso que o nosso projeto não foi de todo comprometido, companheiro, mas foi seriamente abalado. É difícil, Rogério! Mesmo assim,

Venceremos!

Mario Drumond
BH 24/3/2011

PS – Peço outras desculpas pela crueza e extensão da carta, mas julguei necessário desopilar-nos. Considero o livro uma das maiores conquistas da Humanidade. O melhor da minha vida devo aos livros, com os quais sempre me vi profundamente envolvido, como leitor, editor e autor. O que vou fazer agora é levar meu exemplar ao encardenador e pedir-lhe que liberte suas páginas de todas as que não são suas e as reencaderne juntas num só volume sob o título Rogério Sganzerla – Jornalismo – Textos sorteados, para que eu possa desfrutá-los com o prazer e a atenção que merecem.

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Gazeta em forma de e-meio 116

A vez e a voz do morro na Cidade Jardim

Jovens de todas as idades unidos no milagre do samba da minha terra, que já não tem palmeiras nem sabiás (e os sábios que se cuidem). Mas, na pobreza digna do nosso barracão, meus amigos, mora a alegria fazendo jubileu de ouro: 50 anos de vida e luta. E vocês estão vendo só uma pequeníssima parte. Cada um desses que aí estão é um legítimo representante de legiões de sambistas, passistas, cantores, atores e artistas do povo. Que vão encher a avenida no próximo carnaval sob a bandeira do Grêmio Recreativo e Escola de Samba Cidade Jardim, cantando o samba enredo 50 anos de cores, brilhos e fantasias.

Que diz:

É na festa
È na festa, é na comemoração
É Cidade Jardim 18 vezes campeã (bis)

Minha nobreza, meu Belo Horizonte
É Cidade Jardim, parabéns para você
50 anos no portal de honra e glória

Sua coroa você fez por merecer
Só quem te viu
Quem te vê
Sabe da sua história

São cachoeiras desaguando na avenida
Muita beleza, confete e serpentina
Olha o requebrado da mulata ho ho ho
Olha o samba no pé
Muito obrigado, Maioral
Aonde você estiver

Nosso Rei Negro viajou
Numa carruagem guiada por
Cavalos marinhos, que foram ao fundo do oceano
Encontrou Atlântida, Cidade Sagrada
com toda magia; uma nova terra que surgia
Ao longe ouvia ecoar / ecoar
O canto da baiana Helena
Como uma estrela fazia brilhar
Quase roubava a cena
Rodando em saudação à Bahia

Que me levou ao seu reinado
Cidade Jardim paraíso encantado (bis)

(autoria de Domingos do Cavaco e Comissão do Carnaval)


E desfilando assim (roteiro do desfile: Graveto/Mario Drumond - carnavalesco: Graveto):


1. Comissão de frente (coreografia e Helena: Izabel Costa)

com 14 guerreiros e Helena

no Portal da Purificação (alegoria com o título-tema Cidade Jardim 50 anos)


2. Ala do Céu e do Mar

com 30 passistas em azul e branco


3. Carro de Atlântida com o Rei Negro (Alexandre Costa) e uma ninfa


4. Ala do Jubileu de Ouro (ou Ala da Coroa)

com 30 passistas em amarelo ouro


5. Carro da Natureza (cachoeiras e matas) com dois destaques


6. Ala da Fertilidade

com 30 passistas em verde e branco


7. Ala das Mulatas (Raiz do Samba)

com 30 passistas mulatas em vermelho


8. Ala das Baianas (30 baianas)


9. Bateria do G.R.E.S. Cidade Jardim (70 ritmistas)

Rainha da Bateria: Nega
Rainha da Escola: Kelly


10. 1º par de Mestre Sala e Porta Bandeira

Mestre Sala: Graveto
Porta Bandeira: Tiene


11. Carro dos 50 anos (8 a 10 destaques, um deles fantasiado de JK)


12. Ala Cidade Jardim

30 passistas de ouro


13. 2º par de Mestre Sala e Porta Bandeira (em fase de seleção)


14. Ala dos Antigos Carnavais

30 passistas em cores diversas
e mais quantos amigos vierem com fantasias famosas dos velhos carnavais


15. Ala da Diretoria (fechamento do desfile)

com atuais e antigos diretores



Memória e sinopse do desfile

Graveto/Mario Drumond

Este enredo nos leva a uma viagem de comemoração do nosso Jubileu de Ouro. São os 50 anos da Escola de Samba Cidade Jardim, e vamos a um encontro imaginário com os nossos eternos irmãos do samba, os que hoje habitam o reino dos céus.

Nossa escola, criada em 1961 no entorno da vila Santa Maria, região centro-sul de Belo Horizonte, alcançou grande importância na cidade, no estado e no país.

Em 1957, surgia o fenômeno do samba, Jairo Pereira da Costa, com o seu jeitinho moleque, sambista, e um sorriso alegre e conquistador. Ele fora o primeiro a conquistar o título de Cidadão do Samba, criado por JK, e nele brotava a raça, o sentimento e o orgulho de ser sambista.

Em 13 de abril de 1961, Jairo, seguido de outros componentes da Escola de Samba União Serrana, funda o Grêmio Recreativo e Escola de Samba Cidade Jardim. Dois anos depois, conquistamos o primeiro dos nossos dezoito títulos no carnaval de rua de BH, onze deles, consecutivos. Em 2002, toda Belo Horizonte ficou abalada com a noticia de que o então presidente da Escola de Samba Cidade Jardim, Jairo Pereira da Costa, partira para o reino dos céus .

No inicio de 2008, seu filho, Alexandre Costa (o nosso valente e querido Lee), assumiu a presidência, substituindo sua irmã Ângela da Costa em um momento de intenso conflito com a Prefeitura Municipal que despejara a escola de seu barracão, de maneira autoritária e prepotente. Lee dobrou as mangas da camisa e fez valer o sangue de sambista e de guerreiro que corre em suas veias, em honra ao seu pai. Com ele lutamos bravamente, dias e noites, agitando o centro da cidade com protestos, bateria, faixas e cartazes para despertar a indignação popular, e esta se vez valer: a nossa quadra nos foi devolvida.

Hoje, como uma das mais tradicionais escolas de samba de Minas Gerais, comemoramos 50 anos de lutas, glórias carnavalescas e obras sociais. Rasgando os céus sob o brilho da lua e das estrelas, bailando no horizonte das gerais, fazemos a festa para o nosso Rei Negro. É festa também para JK, nosso padrinho, é festa para os grandes carnavais que, no passado, protagonizamos nas passarelas do samba.

Com tanta beleza e luxo, é como se os encontrássemos nas maravilhas de Atlântida, o continente perdido, com a força e a magia de suas casas feitas em ouro e pedras preciosas, cachoeiras jorrando aguas cristalinas e os seres que habitam as profundezas do mar. É o reino encantado do sortilégio, de nobreza sobre nobrezas, onde nosso Rei Negro, coroado pela eternidade, chegou numa carruagem puxada por cavalos marinhos, passando pelo Portal da Purificação. E, cumprindo todos os requisitos que nele são exigidos, foi habitar as profundezas celestiais do oceano, onde a imaginação não encontrará jamais qualquer limite.

Nosso enredo é um chamado à grande festa popular que é o carnaval brasileiro, a relembrar os velhos amigos; um chamado à verdade e à magia de brincar, dançar e comer do bolo no baile de máscaras. Um chamado a participar!

A Cidade Jardim, com a sua comunidade, vai cantar e encantar em 2011, como sempre movida pelo amor e pela esperança de brilhar. São 50 anos a comemorar!

domingo, 5 de dezembro de 2010

Gazeta em forma de e-meio 115

Uma notícia triste

O falecimento de minha mãe

Maria Elisa Pitanga Maia Drummond
(18 de março de 1922 - 23 de novembro de 2010)


Segue-se o discurso que pronunciei na Missa de Sétimo Dia:

O triunfo de Maria Elisa

Queridos amigos,

Escolhi abordar a memória de minha mãe - Maria Elisa Pitanga Maia Drummond - não pelo ponto de vista do filho ou das relações internas da família que ela maternalmente presidiu, mas pelo aspecto singular do que foi mamãe como pessoa, como ser social, como amiga que era de todos nós, porque é o lado dela que nos une e nos irmana neste momento e, por isso, creio ser o mais apropriado.

Sim, mamãe não era só a mãe de seus filhos; ela era também nossa amiga - e que amiga! -, a mesma que todos vocês conheceram tão bem quanto nós, seus filhos.

Eis aí uma particularidade entre as que considero mais encantadoras na vida dela. Não era necessário um relacionamento íntimo ou frequente com ela para conhecê-la bem. Mesmo os que tiveram poucas ou esporádicas oportunidades de contato pessoal a conheciam tão bem como nós, que com ela convivíamos intimamente.

É que seu espírito se mostrava inteiro a qualquer pessoa com quem se relacionava, desde o primeiro contato. Era um espírito de transparência cristalina, sem disfarces, sem segredos, sem opacidades, sem nuances, sem ardis, sem temores e sem couraças - um verdadeiro diamante que ela permanentemente lapidava para torná-lo cada dia mais puro.

E que não se diga que era ela ingênua. Pelo contrário, era versada em dois importantes idiomas, o francês e o inglês, além do nosso idioma pátrio, que dominava muito bem. E nos três desfrutou de boa leitura, conversação e escrita; pode-se dizer que tinha uma ilustração bem acima da média. Porém, disso jamais tirou vantagem ou afetação de superioridade; nem se valeu desses atributos em proveito próprio. Comunicativa e desinibida como era, ela usava-os com naturalidade para aproximar pessoas de distintas nacionalidades e culturas. No mais, ela os mantinha em si mesma, nos planos mais elevados do deleite intelectual e da satisfação espiritual.

Mamãe teve por paradigma a bondade - a bondade no sentido cristão, católico, apostólico, com base nos ensinamentos simples e sábios de Cristo, de amor ao próximo, de misericórdia e de humildade, em que ela elegeu como ícone de devoção a bem aventurança de Santa Terezinha -, e, por virtude, cultivou a pureza. Jamais permitiu que seu espírito se deixasse contaminar por ambições e perversões mundanas. Sua atitude era sempre a de dar sem pedir nada em troca. Nunca cobrou nem pediu nada para si mesma, nem mesmo um mero reconhecimento. Para o bem alheio, sim, pedia, até de joelhos se preciso fosse. Ela conjugava o verbo dar na acepção franciscana, despojando-o da insignificância material e efêmera para enaltecê-lo de relevância espiritual e divina.

Assim, suas alegrias eram causadas não por seus próprios sucessos, os quais nunca almejou nem perseguiu, mas pelos sucessos daqueles que ela amava. Como disse bem o meu irmão Marco Antônio, "ela comemorava até gol da Argentina". Sabia como fazer suas as vitórias dos seus, fossem os mais próximos ou os mais distantes. Às vezes, as desfrutava mais e melhor que os próprios bem sucedidos. E como era amplo e populoso o seu continente amoroso! Era do tamanho do seu coração: nele não havia lugar para intolerâncias nem preconceitos; todos eram bem-vindos e bem recebidos. Desta forma, simples e direta, fez com que a sua vida se passasse quase toda num mar de alegrias e numa sequência de festas.

Uma vida que pode ser representada por uma linha reta traçada entre dois pontos: o de seu nascimento e o de sua morte. Nela se destacam dois segmentos: o primeiro, como filha gentil e amorosa de seus pais, Achilles e Elizeta, até o seu casamento com papai (depois de 11 anos de namoro e noivado) e o segundo, como esposa e mãe, em regime de dedicação exclusiva - únicos títulos que ela se honrava em possuir (e ainda conquistaria os de avó e bisavó) -, do feliz casamento que durou mais de 61 anos. Mas foi sempre a mesma pessoa do início ao fim e fez com que a retidão de sua vida ocorresse toda cercada de luz, de paz e de alegre harmonia.

Uma biografia sui generis, sem registros de inimizades, desafeições e outros tumultos existenciais ou de relacionamento, inclusive sem as máculas dos chamados pecados capitais, os quais, ao que parece, era capaz de anulá-los até no seu entorno; mesmo a inveja, o mais incidente contra pessoas como ela, logrou não despertar entre aqueles que a cercavam. Um rio único, límpido e calmo, que correu retilíneo, da fonte ao mar, por entre a floresta inóspita.

O fato de ela a ter vivido em trânsito por um mundo tão adverso - mundo este que, apesar de tudo, para ela fora o que abrigava os seres que ela soube amar, e por isto mesmo, sempre haveria de ser um mundo de esperanças - foi, para mim, e estou certo que para ela também, a sua grande vitória; um verdadeiro triunfo, talvez o mais significativo dos que se podem obter na vida terrena. Como isto foi possível a partir de pessoa tão frágil e tão desarmada como mamãe para esta vida tão dura, espinhosa e difícil como a em que vivemos?

Penso que temos parte nele. Mamãe se sabia muito bem protegida pelos seus, pois neles depositava absoluta confiança. Além de papai, seu mais próximo guardião, na dedicação do esposo que não permitia que a ela nada faltasse e que daria a vida para salvá-la de qualquer ameaça, nós, igualmente, como um exército de guardiães voluntários, procurávamos quitar a dívida espiritual que assumíamos com ela por sua bondade e generosidade, protegendo-a sempre que pudéssemos e onde estivéssemos. Ai de quem levantasse um dedo que ameaçasse Dona Maria Elisa! E sempre havia um de nós por onde quer que ela passasse. Assim, ela atravessou incólume durante os seu 88 anos, oito meses e quatro dias de vida a selva selvagem em que se transformou a existência urbana deste nosso planeta, trilhando-a firme e em linha reta. E, por mais vulnerável fosse tal existência quase somente espiritual e sensível, nós a protegíamos como um valioso bem que, em parte, conquistáramos através da amizade. E nos era muito valioso mesmo!

É este triunfo que aqui, depois de sete dias da dor que nos causou a sua partida, devemos comemorar como sendo de todos nós, pois com ele Maria Elisa, Dona Maria Elisa, mamãe, ressurge em nós como nossa mãe celestial e nos faz todos irmãos, tal como ela queria, e por tal pleito dedicou a sua vida dadivosa. Um triunfo da fé, dirão os religiosos; um triunfo da virtude, dirão os humanistas. Talvez, antes de tudo, um triunfo do amor, pois, como Santa Terezinha, a vocação dela era o amor.

Para terminar, faço aqui uma revelação, possivelmente a única desta oração, toda composta com fragmentos da vida de mamãe, que tão bem conhecemos:

Agora, que ela ultrapassou o último portal da sua bela existência, eu a posso ver, no pleno gozo do seu-nosso triunfo, na melhor das imagens que, em minha opinião, a literatura universal teria nos legado para representá-lo.

É aquela que a imaginação de Dante construiu para exaltar a sua Beatriz triunfante, como um novo facho de luz que se acrescenta à luminosíssima cúpula celestial no mais perto de Deus e mais elevado patamar do Paraíso, presidido pela Virgem Maria. Eu posso ver mamãe lá, sendo recebida com as bençãos de Nossa Senhora e de Santa Terezinha, e, humildemente, tomando o seu merecido lugar naquele cenário deslumbrante. De lá ela nos abençoa e se sente imensamente grata a todos nós por tê-la ajudado a ter sua morada eterna no lugar onde sempre desejou. E com aquele sorriso sereno e contagiante e a simplicidade de sempre, que são duas de suas mais conhecidas virtudes, outra vez ela nos diz:

Muito obrigada!


Igreja de São João Evangelista, no bairro da Serra,
em Belo Horizonte, 29 de novembro de 2010.

domingo, 25 de julho de 2010

Gazeta em forma de e-meio 114

A Gazeta recomenda

Para quem tem banda larga e cerca de uma hora e quinze minutos nesta domingueira, a Gazeta recomenda o discurso que Hugo Chávez pronunciou em cadeia nacional, neste sábado, em comemoração do 227º aniversário de nascimento de Simón Bolívar.

Está no vídeo, ao pé da página, no seguinte endereço, (duração: 71 min.):

http://www.aporrea.org/tiburon/n162006.html (a recomendação é de que o vídeo seja visto antes da leitura do texto na mesma página)

Apesar de ser em espanhol, a boa dicção do orador permite-nos uma clara e quase total apreensão do discurso. Mas, como informação que pode ser útil à sua melhor compreensão, pois nada do que realmente se passa lá é permitido que se divulgue por acá, é bom que se saiba:

a) A Venezuela está, neste momento, sob forte pressão bélica imperialista. Utilizando a Colômbia como uma nova Israel na América Latina, os EUA manipulam aquele governo títere para fazer as provocações (como a mais recente, na OEA) enquanto ocupam sete bases militares fortemente armadas no território colombiano. Como se não bastasse, estacionaram agora 46 navios de guerra na Costa Rica, além de fortalecerem as bases militares que mantêm em Aruba e Curaçao e ordenarem o deslocamento da 4ª Frota para o mar do Caribe. Ou seja, nos próximos dias, a Venezuela estará literalmente cercada de forças militares estadunidenses, prontas para agir.

b) A inteligência venezuelana desmantelou, duas semanas atrás, um plano de assassinato de Hugo Chávez ao prender o terrorista salvadorenho Chávez Abarca, com larga ficha de atentados contra Cuba, Nicarágua, Guatemala, Honduras e outros países da América Central a serviço da CIA e sob o comando do famoso terrorista Posada Carrilles.

c) Há cerca de 10 dias, em ambiente festivo e patriótico, o governo da Venezuela promoveu a exumação dos restos mortais de Simón Bolívar, com a finalidade de realizar diversos estudos e análises científicas com base em modernas tecnologias e elucidar uma série de dúvidas sobre a história do Libertador, especialmente as que são relacionadas com as reais circunstâncias de sua morte prematura e não de todo esclarecidas. O evento teve forte impacto nacional, com os principais momentos divulgados em cadeia nacional e com a troca dos aparatos funerários, que eram todos de origem estrangeira (ingleza) e foram substituídos por peças manufaturadas pelos trabalhadores venezuelanos com materiais (ouro e madeiras) do próprio país, e destaque para a nova bandeira que passa agora a envolver o sarcófago. Feita com tecido nacional, a bandeira viajou por todos os Estados para que costureiras bordassem nela as oito estrelas, como a queria Bolívar (eram sete na que estava no ataúde), diante das câmeras de televisão. O discurso de Hugo Chávez, pronunciado no Panteão dos Libertadores, em Caracas, é o da solenidade de encerramento dessas festividades.

d) Dia 26 de setembro próximo haverá eleições para a Assembléia Nacional da Venezuela. Era plano do Império se valer dessas eleições para derrubar a maioria chavista e eleger políticos de oposição que manejassem um golpe de Estado a partir do Legislativo, como fizeram em Honduras. Para isso, acirraram os ataques midiáticos, os boicotes econômicos e a sabotagem interna a fim de que os políticos de oposição tivessem mais chances na eleição. Porém, já perceberam que, apesar de tudo, a popularidade de Chávez não parou de crescer e tudo indica que ele conquistará uma maioria avassaladora (mais de 2/3) na Assembléia Nacional para a próxima legislatura. A conclusão dos "estrategistas" do Império é a de que somente uma invasão armada ou uma guerra provocada pela Colômbia, apoiada pelos EUA, poderá derrubar o governo bolivariano da Venezuela e eliminar Hugo Chávez.

E Hugo Chávez está ciente e consciente de tudo isso. Veja no vídeo.